Palavra-passarinho ou corpo-ninho

A young girl crouching and exploring flora in a sunlit forest, connecting with nature.

Te escrevi um texto com meus cabelos. Meus dedos estavam ocupados sendo ninho. 

Na cabeça as palavras se formam. Torço pra que elas não fujam, pra eu poder arrumar cada uma. Tentativa de controlar palavras-aves que querem se espalhar, livres. Da mesma forma que surgiram, querem ir. Eu as chamo pra dançar. Pra poder desenhar esse ninho circular. Ninho abrigo, na nossa cama-universo. 

Enquanto te embalo, sinto que cada palavra ao longo desses meses foi gestada no nosso encontro. Algumas eu queria invisíveis. Outras, que nem existissem. 

Eu queria só exibir palavra-flor, palavra-fruto. Mas saíram os espinhos brutos, saíram os ramos de folha seca, o fruto amargo, aquelas coisas que apodreceram no canto da noite-dia-noite.

E, no final, eu gosto bem assim, de tudo que sai, do que não me escapa pelo ar e consegue chegar a ser escrito. Me delicio com o fruto pequeno e azedo, miro atenta os espinhos que ornam as flores, rememoro tempos outros ao rever as florzinhas bem pequenas e sem cor, que incorporo ao nosso ninho-palavra. Aprendo com o escuro. O que morreu em mim é adubo, e fertiliza o fim do que foi, dando início ao que é agora, espaço-tempo presente. 

Meu líquido lembradiço, como conta Conceição Evaristo, se formou palavra. Lembrei como posso escorrer memória e encontrar uma existência outra, com gotas de leite. Esse líquido-memória-afeto é parte do ninho.

Aprendi a ser corpo-ninho. Te aninhar virou meu verbo-ação participante. Esse ninho que se forma entre meus braços e coração se completa para além da palavra, com seu ser, Yamandu. Meus braços se tornam galhos. Te fazem pousar, convite pra descansar. Ao embalar esse momento, meu peito venta essa dança do tempo, que parece eterno, mas acaba quando fecho os olhos. Meu coração, tambor grande, me guia. Às vezes o faço bater mais alto, pra você ouvir. Danço com minha respiração e expiro calma pra te encontrar.

Minhas palavras gostam do som da sua paz. Só escrevo quando você dorme, acho que seus sonhos me guiam. Aninhamos meu corpo e o seu. Eles se encontram e bem no meio uma nova coisa se forma e nos comporta. Nos re-configura. Nos enrosca, como nossos dedos entrelaçados, formando um novo coração.

Toda cumplicidade do mundo cabe nos nossos polegares, ponta a ponta em contato, como raízes fininhas que se comunicam e contam histórias de um passado que sempre foi nosso.

Meus balanços de corpo-tronco te convidam pra se embolar no nosso ninho, pra você se saber seguro e voar alto. Te alimento com frutos azedinhos, germinados hora a hora, com o trabalho duro de quem decide ter coragem de sustentar um broto de vida, uma vida inteira.

Quando cabe, 

a palavra, 

entre sonhos, 

vem pro mundo, 

brinca,

bagunçada,

narra nosso aninhar. 

Vou juntando as palavras, empilhando, tecendo os fios, entrelaçando as letras, ecoando os sons que passam pela minha mente, tantos sentimentos minando nas mensagens do que ouso dizer, apenas para reler ou para te contar.

Traço imagem-amor, em silêncio, para abrir caminho entre o mundo de dentro e o que planeja vir à tona ou voar.

Autora: Bárbara Pelacani

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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