Os fios que nos unem

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A maternidade é um fio que atravessa gerações, perpassa ventres e nos conecta às vivências, às histórias e aos saberes das que vieram antes.

Aos quarenta e três anos, tornei-me mãe do João. Antes dele, eu era apenas filha da Maria. 

Minha mãe foi deixada pela própria mãe aos cuidados da avó paterna, que pouco tinha a oferecer. Aprendeu a ser forte e a esconder suas carências. Demonstrar amor parecia fraqueza, e o mundo lhe cobrava fortaleza.

Sou a única mulher entre cinco irmãos. E, embora ela fosse a mesma mulher, nenhum de nós teve a mesma mãe. Cada filho conhece uma versão diferente daquela que o cria. Por muito tempo, enxerguei minha mãe através da dor. Vi rejeição onde havia medo. Vi abandono onde existia uma mulher desamparada, sobrecarregada, sem colo para sustentar suas dores quando a vida pesava demais. Faltavam-lhe memórias de afeto e pertencimento.

Um dia, enxerguei-a para além do papel de mãe. Encontrei a mulher que, assim como eu, sangrava na alma. E finalmente vi, por trás das palavras duras da minha mãe, a menina que também não havia recebido ternura. Algo, então, começou a florescer. Eu a acolhi na minha alma. Sem negar o que vivenciei, desisti de esperar aquilo que eu achava que me faltava e me abri para aceitar o que ela podia me dar.

A partir desse dia, começamos a reescrever uma nova história. Desse reencontro nasceu um novo olhar e, com ele, uma ponte que nos conectava. Um amor possível foi construído a passos lentos e atentos. Assim nos aproximamos pouco a pouco, com pequenas doses de presença. Tardes de domingo, cada uma deitada em um sofá, assistindo ao programa do Silvio Santos enquanto partilhávamos sonhos empoeirados. E, como numa dança, silêncios respeitosos se intercalavam entre uma confissão e outra.

Havia, entre nós, uma vontade de ficar. De não fugir de novo. E hoje, quando penso nisso, entendo que os momentos escolhidos para estarmos juntas foram um resgate não só nosso, mas também das histórias que vieram antes. Já não éramos apenas nós duas: éramos múltiplas.

Não apagamos nossa história; ela foi ponto de partida para outro destino.

Quando soube que meu ventre se fez casa, compreendi que não era início, mas continuação.

Um dia, li que mãe e filho trocam células durante a gestação, e que algumas ficam no corpo por muito tempo. Aquilo me atravessou. Pensei em Maria. Pensei em João. Talvez o corpo guarde, em silêncio, aquilo que a boca demora uma vida inteira para dizer.

Eu não queria que João herdasse o que eu ainda tentava curar. Fiz de mim aquela que rompe ciclos: acolhi as dores das que vieram antes e procurei ressignificá-las com intenção e respeito.

Agora eu gestava João.

No ventre da minha mãe, eu era filha; no meu, João era possibilidade. Três gerações se encontraram antes mesmo de sabermos.

Minha mãe me carregava.
Eu carregava João.
E, de algum modo, todas as mulheres antes de nós estavam ali.

Voltei às minhas ancestrais. Às mulheres que não puderam demonstrar amor porque nunca haviam sido amadas. Às que ofertaram pouco porque quase nada tinham. Às que, mesmo sem saber, abriram caminhos.

Como minha mãe um dia me confessou:

“Minha filha, eu não queria ter mais filhos. Por isso te rejeitei. Mas, quando te tive nos meus braços, eu te amei e procurei fazer o melhor que pude.”

Essa frase não apagou a dor, mas me transportou para dentro do seu coração. Ali, pude ver aquela mulher com lentes de aceitação: as do amor possível. Minha mãe me deu o que podia dar. E, se faltou amor, não foi por ausência de vontade, mas por ausência de recursos.

Reconheci suas dores e trouxe luz às suas ausências. E assim minhas feridas deixaram de ser destino e passaram a ser história. Padrões que se perpetuavam por gerações começaram a se desmontar à medida que escolhi seguir por outro rumo. Por mim, por minhas ancestrais e, principalmente, por João, escolhi não pertencer mais à sentença de abandono e autoexílio.

Fiz-me casa e abrigo.

Eu me vi na minha mãe. E reconheci em mim aquilo que ela insistia em disfarçar: a fragilidade, o medo, a imperfeição e, principalmente, o desejo imenso de acertar.

Uma noite, depois de me dar um beijo de boa noite, João disse:

“Mamãe, você sabia que eu te escolhi para ser minha mãe quando eu estava morto?”

Com a voz embargada, respondi:

“Sério, amor? Fico muito honrada pela escolha. Sei que não sou perfeita, mas busco fazer o melhor por você.”

Foi então que ele me interrompeu:

“Você é sim, mamãe.”

Eu apenas sorri e disse que o amava.

Não reivindico o lugar da mãe perfeita. Quero que ele me conheça com minhas falhas, minhas dificuldades e meu esforço em permanecer. Quero que saiba que, comigo, terá sempre espaço para ser quem é. Somos aprendizes nesta vida: ora filhos, ora pais.

Sigo procurando em mim a mãe que desejo ser. 

Quero ser inteira: reconhecer minhas rachaduras, mas não morar nelas. Escolhi amar sem fazer do amor uma dívida.

Pela vida afora, fui quebrada em muitos pedacinhos, sim. Mas aprendi a não descartar as partes espalhadas pelo chão, e sim a repará-las. Fui me reconstruindo sem soltar o fio que me liga a elas, minhas ancestrais. Entendi que aquilo que parecia perdido e sem sentido ganha uma nova vida ao ser colado com ouro e perdão.

Talvez seja isso a maternidade: aceitar que o amor por um filho não nasce de uma perfeição inalcançável, mas de um desejo profundo de entregar o melhor de si.

E, ao atravessar essa jornada, permiti-me ser reconstruída enquanto, com meu filho, aprendo a construir uma vida — e não apenas a sobreviver.

Autora: Cristina Wurzer – @entre_fios_presenca

Revisora: Yhasmin Viriato

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