Hoje, dia 5 de setembro, estou sentada na recepção do pronto-socorro do hospital em que minha vida mudou. O hospital em que ganhei o presente mais lindo, a tarefa mais difícil e o título mais nobre da vida: ser mãe.
Um nó fecha a garganta, a respiração parece faltar. Isso me faz olhar para águas escuras, profundas, que anunciam minhas emoções turvas — assim como elas.
Eu aqui, sentada, tenho vontade de chorar de medo, de nostalgia, de cansaço, com um sentimento de não querer viver a dor de novo. Dor no peito, literalmente. Mastite, pela segunda vez, mais difícil ainda. O receio de ser tomada pelas sensações mais desafiadoras para mim: a ansiedade e o medo.
Deixo-me respirar nessa água e o choro não corre, sendo interrompido pela senha sendo chamada no painel. Mas esse um minuto me fez mergulhar em mim e nas minhas emoções muito mais do que pude mergulhar em um ano — o primeiro do meu filho.
Há uma família aqui, nessa recepção, com um bebê recém-chegado ao mundo, e eu só penso em como a nossa vida muda com a chegada do nosso maior amor. Eu não imagino minha vida sem meu filho, e todos os dias eu agradeço por ter esse pequeno zanzando pela casa, falando o dia todo e sorrindo de alegria.
Mas, ao mesmo tempo, sinto falta de mim. Até porque eu ainda estou na travessia de encontro com minha nova eu; aquela que eu era foi se esvaecendo conforme cada contração me atingia, e, no decorrer das noites em claro e dias intermináveis, ela se despediu, mas não me disse o que fazer para encontrar a eu do futuro. Então a jornada é essa, de encontro, de tentar enxergar quem eu sou agora.
O que não esperava é que esse processo fosse tão demorado e doloroso. Será que ele terá uma linha de chegada? Ou será que eu realmente conseguirei saber quem eu sou depois de ter atravessado o portal do gestar e parir?
Enquanto penso nisso, também penso que eu preciso estar presente, viver e, principalmente, desfrutar a jornada, aproveitar cada segundo das mãozinhas e pezinhos gordinhos que crescem todos os dias, os beijos babados e todo o carinho que um bebê de um ano pode oferecer. Já, já isso passa. E tenho percebido que esse tempo corre muito mais rápido do que o tempo do relógio.
Inclusive, isso me dá a sensação de viver entre tempos: o tempo do filho que cresce rápido e dos dias intermináveis, e o tempo da busca incansável por mim, que parece correr no completo oposto a esse crescimento. Essa busca avança lentamente, a passos curtos e confusos.
E essa dança do tempo corre junto à enxurrada que as minhas emoções são. As águas turvas, por vezes, ficam claras, e outras até reluzentes, como se o sol as estivesse iluminando. E eu sei que está. Sei que essa é uma jornada de muitas buscas, e, assim como as contrações vêm em ondas, as águas chacoalham e se remexem. Saber disso, em algum lugar, acalma o meu coração.
Eu sei que já, já eu me reencontro em uma nova fase de águas calmas.
Um novo corpo, novas roupas, novos cabelos, novos desejos, uma nova mulher.
E eu vivo esse processo de vida, morte e vida de novo.
Autora: Carla Beserra – @carlafilippo
Revisora: Yhasmin Viriato





