A maternidade e o luto de si mesma

A pregnant woman standing beside a crib in a cozy nursery room.

Querida, e como você está?

Acrescentei o “e” na pergunta porque geralmente a primeira é para a(o) bebê. No meio do caos, essa pergunta pode soar como um espinho agudo no âmago da alma, pois, assim que a(o) bebê chega, quase a todo tempo somos forçadas a dizer que está tudo bem, quando na verdade queremos dizer sim e não, ou só não. Mas você respira, tenta imprimir um semblante leve, com um sorriso estampado de que está tudo bem. Afinal, a sociedade prega há séculos que a maternidade é a realização de toda mulher… só que não! Mas vamos papear, puxe uma cadeira e vamos tomar um chá.

A maternidade nos é imposta como puro instinto. Eu, quando fiquei grávida, logo pensei: comigo não muá, eu, mulher, feminista e militante? Estou preparada para jogar na cara da sociedade que não é bem assim, vou construir a maternidade que eu acredito. Mas, quando a prática chega, você até consegue se desvencilhar de algumas normas do patriarcado, mas outros desafios ou até os mesmos surgem de forma repaginada, e caem como baba na sua cara.

Há tempos as mulheres constroem caminhos para derrubar essa sólida coluna do patriarcado sobre a maternidade, e já colhemos bons frutos. Mas, logicamente, estamos falando de uma estrutura a ruir, e que até o momento talvez esteja só tombada. Até porque, por vezes, nesse caminho tortuoso, caminhamos por polarizações. Saímos do polo da maternidade como obrigação e romantização para o polo da maternidade de mulheres guerreiras e fortes.

A própria maternidade já é esse poço de contradições: em um polo há doçuras, alegrias e amor, e no outro há tristeza, medo e angústia. Quem determina esse padrão em que amamos ou odiamos a maternidade? Por que não as duas coisas e está tudo certo? Não somos as únicas alecrins douradas que sentem isso, e precisamos falar e construir maternidades reais e possíveis.

Falar em maternidade real onde eu quero chegar com o luto de si mesma, pois, antes de ficar grávida, nunca tinha ouvido falar disso. Já parou para pensar que, ao engravidar, você escuta que uma nova mulher nascerá e você tem que se despedir da que era? Quando escutei que tinha que fazer o luto de mim mesma, fiquei pensando: Deusa, o que eu fui fazer? Tudo o que fiz para me tornar a mulher que sou hoje, para construir meu eu mulher profissional, está perdido? Demorei a processar e confesso que estou processando até hoje, depois de quase seis meses de puerpério. Mas fica a pergunta: por que será que os homens não escutam as mesmas coisas?

Falar de luto na maternidade e tantos outros temas, infelizmente, não é para a maioria das mulheres, especialmente as mulheres negras. Para elas, a maternidade é compulsória; milhões de mães solo estão desempregadas, não têm rede de apoio nem estrutura mínima digna para exercer a maternidade, além de viverem, muitas vezes, o luto dos seus filhos perdidos para o Estado. Então, pensar sobre o luto, nessa perspectiva, acaba sendo privilégio para poucas.

Aqui, quero trazer três aspectos ligados a esse luto que me inquietam e são socialmente construídos. O primeiro é sobre a licença: quem tem direito a um período maior são as mulheres, e foi construído socialmente e atrelado a uma natureza biológica a ideia de que só as mulheres conseguem suprir a maioria das demandas com o bebê. Mas acredito que, mesmo com o instinto e a natureza agindo, os homens também conseguem dar conta de todas essas demandas. Ou será que esse instinto vem desse “papel” do cuidar que foi atribuído às mulheres ao longo dos séculos?

O segundo peso: como você vai conseguir equilibrar ser mulher, feminista, independente e que trabalha com sua função materna? Agora você decide por dois. Estudar e ser mãe de um bebê ao mesmo tempo transforma a dupla jornada em tripla, e a saúde mental acaba pagando essa conta.

O terceiro vem com a célebre frase: a dádiva de estar feliz com a chegada do bebê! O outro lado, mórbido, é o luto de si mesma, afinal a mulher que você era morreu. Como combinar a felicidade com a chegada da vida ao mesmo tempo em que se vive um luto? Tem horas que sua cabeça dá um bug! O luto que conheço (ou achava que conhecia) não combina com isso. Na hora de viver essa felicidade, é preciso dizer adeus a você mesma. Talvez esse momento seja tão duro porque você está abrindo mão da sua autonomia, e isso deixa uma sensação de vazio. Estão tirando algo que conquistei a duras penas, como pode?!

Mas, inicialmente, tendo a pensar que a maternidade que quero construir não apaga a mulher estudante que fui e sou, a mulher profissional que sou, a mulher amante que habita nesse corpo — que está se readaptando e cheira a leite. A maternidade agrega mais uma face à mulher que posso ser. Podemos adiar, refazer, mas tudo isso pode acontecer na nossa vida mesmo sem ser mãe, então não vamos colocar essa carga na conta da maternidade. Readaptar sonhos poderia ser menos cansativo se todas as mulheres tivessem parceires  que compartilhassem as tarefas, se a licença parental fosse ampliada e igual para os dois e se todas tivessem rede de apoio. Ter uma pausa da vida profissional pode ser menos pesado se a sociedade não te cobrar por só ser produtiva quando alimenta o mercado capitalista, e se parar de invisibilizar o trabalho envolvido no cuidado materno.

O que quero desejar com esse relato, que pode ser confuso e dialético, é que você não se sinta só e procure apoio. E você que é amiga ou familiar de uma recém-mãe, ofereça apoio. O luto da maternidade pode ser coletivo, em vez de individual. E o principal: precisaremos de políticas públicas voltadas para as mães, para as crianças, de licença parental digna e igualitária, de destruir o patriarcado e o racismo. Simples? Nem um pouco. Mas sigamos juntas! Afinal, existe a frase que é clichê, mas é bem isso aí: Transformamos luto em luta. Mas… que horas o luto do pai chega?

Autora: Camille Santos – @camille.correia

Revisora: Yhasmin Sousa Viriato

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