Entre o que deixo e o que levo

A close-up of hands skillfully braiding a young girl's hair in an indoor setting.

Antes de sair de casa, minha filha mais nova me pediu para trançar o cabelo dela “do jeito que segura o dia”.

Sorri antes mesmo de responder. Ela sempre usava essa expressão quando queria uma trança bem firme, daquelas que resistem ao recreio, à aula de educação física e ao vento da volta para casa. Enquanto meus dedos dividiam o cabelo em três partes, ela me contava, sem qualquer ordem, as novidades da escola, cantava uma música nova que havia aprendido, falava da joaninha que pousara na janela da sala e sobre uma colega que havia chorado no dia anterior. Eu já não saberia repetir a sequência daquelas histórias. O que permanece é a lembrança da cabeça dela repousando tranquila entre as minhas mãos e da confiança silenciosa com que me entregava aquele pequeno ritual naquela manhã apressada.

Quando terminou de se olhar no espelho, ela sorriu satisfeita e saiu correndo. Eu fiquei ali por mais alguns segundos, pensando que talvez nós, mulheres, passemos boa parte da vida inventando maneiras de segurar os dias. Há quem os segure com as mãos ocupadas, há quem os sustente com esperança, com fé ou com disciplina. Eu, naquela manhã, começava a segurar o meu prendendo os cabelos da minha filha.

Só então saí de casa. Como acontece todos os dias, deixei para trás um mundo e caminhei em direção a outro. De um lado, as meninas, com suas urgências pequenas apenas para quem não conhece a importância de uma trança bem feita ou de um beijo apressado antes da escola. Do outro, o trabalho, onde as urgências raramente respeitam relógios, agendas ou qualquer tentativa de organização.

No percurso, carrego sempre uma espécie de bagagem invisível. Nela viajam compromissos, nomes que não posso esquecer, conversas interrompidas na véspera, perguntas que ainda procuram respostas e um cansaço que aprendeu a esperar. Entre tudo isso, levo também um pedaço daquela trança. Não o penteado em si, mas o gesto. A lembrança de que, antes de cuidar do mundo, eu amarrei o dia dela.

Ao chegar ao trabalho, a delicadeza da manhã logo cede lugar à realidade. As histórias nunca chegam inteiras, elas vêm marcadas pelo tempo, interrompidas pelo choro, escondidas em silêncios que demoram mais do que as palavras. Há pedidos de ajuda que exigem providências imediatas e outros que pedem apenas a presença de alguém disposto a permanecer ali, pois não existe solução possível. Em alguns dias, uma idosa segura minha mão antes mesmo de dizer bom-dia. Permanece ali por alguns segundos, tentando confirmar que ainda existe alguém disposto a escutá-la. Em outros, chegam mulheres que pedem ajuda sem conseguir formular o pedido inteiro. Basta sentarem à minha frente para que eu reconheça um cansaço que não nasceu naquela semana, nem naquele mês.

É impossível viver esses encontros sem carregar alguma coisa de volta, pois cada história encontra um lugar dentro de nós, mesmo que tentemos deixá-las do lado de fora. Talvez seja por isso que, no meio da tarde, eu pense nas minhas filhas com uma ternura ainda maior. Não é culpa (a culpa nunca sustentou ninguém), apenas lembro-me delas como um amuleto, um lembrete de que continuo inteira, mesmo quando a vida insiste em me repartir entre tantos lugares.

Quando volto para casa, descubro que o dia delas também aconteceu sem mim. Os uniformes já trazem marcas do recreio, os cabelos escaparam um pouco da trança. Há desenhos novos nas mochilas e perguntas esperando pela minha chegada.

“O que tem para o jantar?”

“Você viu minha blusa?”

“Hoje eu posso dormir do seu lado?”

São perguntas simples, mas que têm o poder de recolocar cada coisa em seu lugar. Enquanto respondo uma e abraço a outra, tudo se mistura outra vez: o trabalho e a casa, as mulheres e as crianças, a trança, o silêncio, o cuidado que ofereci ao longo do dia e aquele que encontro, sem perceber, quando volto para casa. Passei o dia acreditando que era eu quem sustentava tantas vidas; no entanto, são elas que, sem saber, sustentam a minha.

Na manhã seguinte, minha filha volta a me pedir uma trança “do jeito que segura o dia”. E eu compreendo que existem gestos tão pequenos que passam despercebidos pelo mundo. Talvez sejam justamente eles que nos mantenham de pé.

Entre o que deixo e o que levo, aprendi que ninguém termina um dia de cuidado igual a como começou. Volto para casa diferente de quem saiu pela manhã, trazendo comigo histórias que jamais serão minhas e deixando, em cada encontro, um pouco da pessoa que eu era antes dele.

E, ainda assim, na manhã seguinte, eu volto. Mas antes de cuidar do mundo, eu amarro o dia dela.

Autora: Aline Testasicca – @alinetestasicca

Revisora: Samantha Viriato

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