O dia sequer havia amanhecido quando a sinfonia começava.
Não era música e passarinhos, era um chiado arrastado e persistente que parecia perfurar seus lençóis.
— Mãe. Ô, mãe.
Primeiro, a voz de Pedro, aguda e em tom de cobrança. Depois, o eco ralo de Chloé. Duas sombras pequenas ao pé da cama, balançando o cobertor, exigindo o pão, o leite, o desenho animado, o uniforme passado e a atenção imediata.
Exigindo vida.
Desde que o marido partira para erguer aquele “conglomerado de educação” cujos detalhes se dissolviam em ligações de três minutos a cada dez dias, seu mundo havia sido reduzido ao perímetro entre a cozinha, a escola e o volante do carro. Ela era a motorista, a cozinheira, a faxineira, a psicóloga e a animadora de plateia. Tudo ao mesmo tempo. Tudo sozinha.
Mas, acima de tudo, era a cozinheira.
E eles comiam. Meu Deus, como comiam.
Antigamente, uma xícara de arroz durava a semana inteira. Agora, três xícaras desapareciam em dois dias, mesmo com a mãe reduzindo sua própria porção a um punhado de sobras. Pedro e Chloé comiam como peixes em um aquário pequeno: sem mastigar, de olhos arregalados para a mesa e empanturrando-se até que as barrigas ficassem duras. Duas horas depois, recomeçavam:
— Mãe, bisnaguinha; mãe, gelatina; mãe, bolacha. — pediam, querendo qualquer coisa.
E o mais aterrorizante não era a fome devoradora. Era o tempo.
As roupas do ano passado ainda serviam. Os dois pareciam presos em um limbo estático, dobrando a quantidade de calorias consumidas sem avançar um centímetro na régua de pescoço da girafa pregada na porta. Eram crianças há anos. Anos demais. Sugavam sua energia para manterem suas bochechas redondas enquanto a mãe se transformava em um fantasma de ossos saltados.
Tentou até seguir a dica fútil de uma rede social: um agachamento a cada vez que a palavra “mãe” era falada, com o objetivo de ganhar musculatura no quadríceps. Era insano. Terminava as tardes com as pernas trêmulas e o quadril queimando. Naquela terça-feira, ao sentir os joelhos cederem no meio da sala, entendeu a lógica perversa da coisa: a carne dela estava sendo consumida para virar a comida deles. O sacrifício era desigual. Foi vendo a luz do sol sob a cortina que, então, nasceu uma solução pronta.
A virada de chave aconteceu há três semanas. Numa terça-feira ensolarada, ela não ligou o fogão. Em vez do vapor de alho e cebola, dois pratos vazios sobre a mesa, os talheres ao lado.
— Cadê o almoço, mãe? — gritou Pedro.
Ela sorriu. Um sorriso calmo, quase angelical.
— Hoje nós vamos almoçar luz — disse, com a voz mansa, quase um sussurro de ninar. E continuou: — É um tratamento novo que o médico da mamãe mandou a gente fazer. Sem comida no estômago, as células de vocês começam a comer a sujeira de dentro. Chama-se autofagia.
Eles olharam para os pratos. Olharam para ela. A mãe sentou-se à cabeceira, ajeitou o garfo no prato vazio e levou o nada à boca, mastigando o ar. Pedro e Chloé, treinados pela obediência, hesitaram por alguns minutos. Então, imitaram os gestos. Mastigaram a luz. Naquela tarde, o milagre aconteceu.
Sem o combustível constante da comida, a máquina hiperativa das crianças começou a falhar. Às duas da tarde, os corpos pequenos perderam a sustentação. As pernas pesaram. O falatório cessou. Pedro se arrastou até o tapete da sala e dormiu. Chloé nem chegou ao sofá; adormeceu no chão do corredor.
A casa mergulhou num silêncio sagrado. Uma paz absoluta, densa e gélida, que durou a tarde inteira. Pela primeira vez em meses, pôde ouvir a própria respiração.
Mas havia o mundo lá fora.
No dia seguinte ao jejum, Pedro e Chloé acordaram pálidos, com olheiras fundas e as bochechas murchas. Pareciam doentes e ainda menores, se bem que agora, realmente tinham motivo para não crescer. Se saíssem à rua daquele jeito, surgiriam perguntas enxeridas.
Antes de levá-los à escola, a mãe mandou os dois sentarem na bancada do banheiro. Com dedos hábeis e frios, pegou a caixinha do seu blush mais rosado. Pressionou o pincel macio no pó e passou com firmeza sobre as maçãs dos rostos das duas crianças, sem energia para reclamar do cheiro de maquiagem.
— Pronto — falou, limpando o excesso de pó com o polegar. — Agora vocês parecem duas crianças cheias de saúde.
O plano funcionava. Mas a paz de um único dia já não era suficiente. Ela precisava de mais. A meta agora era expandir a alimentação de luz para dois dias na semana. Depois, quem sabe, três.
Hoje era quinta-feira. O segundo dia de jejum da semana.
Na mesa da cozinha, os pratos de porcelana brilhavam sob a lâmpada do teto. Pedro e Chloé estavam sentados, eretos, o olhar fixo no nada. O efeito do blush de ontem ainda manchava suas peles finas com dois círculos rosa-choque completamente artificiais no centro de rostos esquálidos e pálidos.
— Mãe… — a voz de Chloé saiu como um sopro seco, os lábios rachados. — A autofagia tá limpando quase tudo. Minha barriga tá fazendo barulho de bicho.
— É a limpeza, meu amor — disse, servindo um copo de água para cada um. — É a sujeira saindo. O médico disse que é assim mesmo.
Pedro nem piscou. Pegou o garfo de metal e começou a raspá-lo no prato limpo. O som de metal contra porcelana ecoou pela cozinha: nhic, nhic, nhic. Ele levou o garfo vazio à boca e fechou os olhos, mastigando o ar devagar.
O relógio da parede marcava dez para o meio-dia. Ela sabia que em menos de uma hora as forças dos dois se esgotariam por completo. Eles iriam para os quartos, desmoronariam sobre os colchões e dormiriam até o sol se pôr.
Ela teria mais uma tarde inteira de paz. O silêncio perfeito. A anestesia da solidão.
Mas agora, olhando para a mastigação invisível dos filhos, ela sentiu uma onda de carinho e alívio percorrer sua espinha.
Sentou-se à mesa, pegou seu próprio garfo e sorriu para Pedro.
— Coma tudo, filho — sussurrou, ajeitando a postura. — A luz de hoje está um banquete.





