Quando você era pequenininho, a gente ia para a praia e eu nunca conseguia sentar.
Eu via as pessoas abrindo a canga, tomando sol, conversando, lendo alguma coisa, ficando ali paradas. Eu não. Eu ficava de olho em você o tempo inteiro. Mãe solo não descansa diante do mar.
Você pegava a bola dos outros, corria entre os guarda-sóis como se a praia inteira fosse sua, subia a escada do quiosque e descia, subia e descia, sem fim. Eu ia atrás, pedia desculpas para desconhecidos, tirava areia da sua boca, ajeitava o chapéu, conferia o protetor solar, procurava a garrafinha de água, olhava para você, olhava para o mar, olhava para tudo ao mesmo tempo.
Você tinha medo da onda, mas uma vontade enorme de entrar. Chegava perto, recuava, ria, me chamava, voltava para o meu colo. E talvez fosse isso que eu mais reconhecesse em nós dois naquela época: o medo e a vontade morando juntos no mesmo corpo.
Eu também tinha medo.
Medo de não dar conta. Medo de estar fazendo tudo errado. Medo de faltar paciência. Medo de ser pouca rede, pouco colo, pouca presença, pouca alegria. Medo de não conseguir te dar uma infância leve enquanto eu mesma tentava me manter de pé.
Mas eu também tinha vontade. Vontade de te mostrar o mundo. Vontade de fazer nossos dias serem bonitos, mesmo quando eu estava cansada. Vontade de te levar para a praia, para o parque, para ver o sol, para correr, para brincar, para sentir que a vida era maior do que as dificuldades que eu carregava em silêncio.
No fim, depois de correr tanto, você dormia no meu colo. Ficava quentinho, aninhado em mim, mamando, com o corpo entregue como se nada no mundo pudesse te alcançar. Eu ficava ali, ouvindo o som do mar, sozinha e, ao mesmo tempo, completamente preenchida de amor.
Foi talvez por isso que eu comecei a escrever para outras mães.
No começo, acho que eu nem entendia muito bem o que estava fazendo. Eu só queria dividir uma dica, um lugar legal para ir com crianças, uma programação de fim de semana, uma praia possível, um café com espaço kids, alguma coisa que deixasse a vida um pouco mais leve.
Mas, aos poucos, outras mães foram chegando.
Mães que também estavam cansadas. Mães que tinham acabado de chegar em Floripa. Mães separadas. Mães sem rede de apoio. Mães tentando trabalhar, cuidar, brincar, resolver, pagar conta, responder mensagem, fazer comida, marcar consulta, comprar presente, lembrar do protetor solar e ainda parecer bem.
E eu fui percebendo que aquilo não era só sobre dar dicas.
Era sobre dizer: eu também estou aqui.
Era sobre encontrar companhia no meio da rotina. Era sobre transformar uma solidão que eu conhecia bem em algum tipo de encontro. Talvez eu tenha criado o Instagram Dicas de Mãe Floripa porque eu também precisava de dicas. Talvez eu tenha ajudado outras mães a se sentirem menos sozinhas porque eu sabia exatamente o que era estar sozinha, na praia, com uma criança no colo, ouvindo o mar e tentando respirar fundo.
Enquanto você crescia, Gui, eu também crescia.
Você aprendia a correr, a falar, a pedir colo, a entrar no mar com menos medo. Eu aprendia a pedir ajuda, a recomeçar, a trabalhar com culpa, a descansar sem culpa quando dava, a ser mãe sem deixar de ser mulher.
A maternidade me deu o maior amor da minha vida, mas também me mostrou partes de mim que eu nem sabia que existiam. A força, o medo, a raiva, a paciência, a coragem, a exaustão, a vontade de sumir por cinco minutos e, logo depois, a saudade de você.
Hoje, quando olho para trás, vejo aquela mãe na praia e tenho vontade de abraçar ela também.
Ela achava que precisava dar conta de tudo. Achava que precisava ser forte o tempo inteiro. Achava que, se sentasse por alguns minutos, alguma coisa poderia escapar: você, a bola, a onda, a vida.
Mas a verdade é que ela estava fazendo o melhor que podia.
E, Gui, se um dia você ler esse texto, eu quero que você saiba: nem sempre foi fácil. Te criar, muitas vezes, foi bonito e difícil na mesma medida. Te amar nunca foi pesado. Mas sustentar a vida em volta desse amor, às vezes, foi.
Mesmo assim, eu faria tudo de novo.
Correria atrás de você na areia. Pediria desculpas pelas bolas roubadas. Subiria e desceria a escada do quiosque mil vezes. Entraria no mar segurando a sua mão. Te pegaria no colo molhado, frio, com sono, com cheiro de sol e protetor solar.
Porque, no meio de tanto cansaço, você foi o meu lugar mais certo.
E talvez seja isso que eu queira deixar escrito para você: eu não fui uma mãe perfeita. Nenhuma mãe é. Mas eu fui uma mãe inteira. Inteira no amor, nas tentativas, nos recomeços, nas noites longas, nos dias de praia, nos medos e nas pequenas alegrias.
Você foi crescendo, e eu fui nascendo junto.
E se hoje eu escrevo, é para que um dia você saiba que antes de qualquer dica, antes de qualquer rede, antes de qualquer recomeço, existiu nós: eu, você, o mar, e esse amor imenso me ensinando a continuar.
Autora: Aline Webber – @dicasdemae.floripa
Revisora: Samantha Viriato





