Juntas

Smiling young girl having fun on a swing in a black and white outdoor setting.

“E lá vamos nós!”, pensei ao olhar para ela. Não era frieza, era uma ordem vinda do fundo da alma.

Enrolada numa coberta surrada de hospital, colocaram-na sobre mim e seguimos corredores afora até o quarto. A orientação era não levantar a cabeça. Obedeci, e apenas torci o pescoço para vê-la através do plástico daquele pequeno berço. Não conseguia enxergar todos os seus traços e perguntei, aflita, ao meu marido:

— Ela é perfeita?

Ele respondeu sem hesitar:

— Lógico que é.

Também pudera, mal havia saído do meu ventre e já estava de olhos abertos, examinando o mundo com a curiosidade que pertence aos fortes, observando tudo ao redor. Eu, ainda assustada, pensei: “Como essa menina é esperta”.

Meu mundo, que até então tremia de medo, encontrou segurança em sua postura. Sua primeira postura. Minha filha, meu legado, minha continuação.

No dia seguinte fomos para casa. A irmã mais velha, curiosa, tentava criar um vínculo com aquela de quem tanto ouvira falar. A pequena que habitara meu ventre e se aconchegava em meus braços logo começou a moldar a nossa rotina.

Sempre guerreira, enfrentou dificuldades que pareciam grandes demais para alguém tão pequena. Aceitou dores, restrições e internações que a APLV nos impôs e nunca me deixou esmorecer com seu lindo sorriso sempre presente.

Quando tudo parecia resolvido, vieram as dores fortes, e uma apendicite a levou para a mesa de cirurgia.

 Logo em seguida surgiram os primeiros sinais de uma luta muito maior. Quem imaginaria que aquele olhar tão atento levaria uma rasteira do destino? Na escola, diziam:

— Falta interesse.

Dentro de mim cresciam o medo e a vontade desesperada de ajudá-la. Eu escutava explicações que não alcançavam a realidade que eu via todos os dias. A menina dos olhos curiosos não podia ser resumida àquilo.

Pouco depois, uma superinfecção a levou novamente ao hospital. Foi lá que ela me ensinou sobre coragem.

Depois de lutar contra todos que se aproximavam com agulhas, não por rebeldia, mas pelo medo da dor, ela passou a oferecer seus pequenos braços para abraçar, consolando quem se emocionava com seu sofrimento.

Ao final de tantos dias, seu corpinho carregava marcas arroxeadas, endurecidas e doloridas, e assim ela venceu mais uma batalha.

Seguimos então para o meu porto seguro, minha terra querida. Lá estavam aqueles olhos curiosos outra vez, prontos para conquistar o mundo. Mas logo eles foram postos à prova por algo aparentemente simples: símbolos.

Símbolos frios. Símbolos que, para ela, não significavam nada! O medo chegou e a vergonha também. Seus superpoderes, sua resiliência e sua capacidade de se conectar com as pessoas não conseguiram protegê-la da sensação de fracasso. Eu via seu esforço, via sua vontade de somar a própria força àqueles novos aprendizados, mas uma luta acima da nossa compreensão já havia começado.

Vieram os laudos.

Vieram os medicamentos.

E veio também uma certeza. Somos, juntas, muito maiores do que qualquer diagnóstico. Criança neurodivergente. Mãe atípica. Palavras que, para alguns, podem soar como sentença. Para nós, tornaram-se bandeiras.

Ser mãe atípica é como descobrir forças que não sabia possuir. É atravessar medos, enfrentar julgamentos e insistir quando tudo parece difícil. É compreender que a diferença não diminui ninguém, pelo contrário, ela revela a grandeza daqueles que aprendem, todos os dias, a transformar desafios em caminhos.

E nós seguimos. Como sempre seguimos.

Juntas!

Autora: Aletheia Guedes – @guedesaletheia

Revisora: Samantha Viriato

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