A paz construída por quem aprendeu a sobreviver
Eu já vivi esperando o dia de morrer.
Onde eu dormia não era um lar.
Onde eu comia, me serviam obrigação.
Pelo portão que eu entrava, saía o respeito.
O que escorava minha alma cansada eram as paredes do meu quarto.
Meus ombros arqueados imploravam por afeto.
Meu peito apertado rezava, pedindo o fim.
Eu tentei ter fé.
Eu tentei acreditar que deus faria algo por mim.
E, quando eu olhava ao meu redor,
eu estava sempre sozinha.
Sem lar.
Sem comida.
Sem respeito.
Sem ombros.
Sem afeto.
Sem deus.
Apenas existindo.
Hoje estou aqui porque, por sorte minha,
uma mini pessoa precisava de mim,
e isso me manteve de pé.
A maturidade não foi se mostrando
como poeira fina sobre a alma.
Ela se sentou na minha cama e disse: “Agora é comigo.”
Não teve negociação.
Por muito tempo me achei responsável,
mas essa semana percebi que sou apenas uma criança assustada,
segurando o mundo com as duas mãos.
Eu achava que era força,
mas era medo com postura ereta.
Essa ferida já não dói
mas ela existe.
Fui construindo minha paz
e já não quero barulho.
Antes, o barulho corria atrás de mim,
e eu nem sequer podia fechar a porta.
Me voltei para mim, para dentro,
não como isolamento,
mas como sobrevivência de quem carrega a casa no corpo.
Falo menos,
porque certas palavras
desorganizam meu silêncio.
Não quero multidão,
apenas uma boa conversa olho no olho.
Eu cansei.
Não desorganizem minha paz
ela me custou caro.
Então volto no momento em que a maturidade
me obrigou a olhar para ela
e me sinto feliz.
Essa ferida já não me guia
Mas ela existe.
Escrito por: Eloá Ipolito – Instagram: @elo_ipolito





