Ser mãe: deve ser a profissão mais antiga do mundo. Ah, desculpe, esqueci que esse trabalho não é remunerado. Ser mãe: deve ser o trabalho mais antigo do mundo. O que existia antes de uma mãe? Será que a primeira pessoa do mundo já nasceu criada? Chamam a Terra de mãe, pois criamos mundos. Cada ser, um.
Não queria ser mãe, mas aconteceu. Mesmo assim, abracei a maternidade. Meu bebê é um milagre. Seu olhar, seguido de um sorriso mágico, às 6h da manhã, ao lampejo da luz do dia, é transformador. Posso ter acordado inúmeras vezes para amamentar; posso estar com dores de carregá-lo; posso ter fome ou nem sequer ter tido tempo para me assear; posso ter feito tudo certo, mas estar transbordando culpa por não ter feito mais ou melhor. E, mesmo assim, retribuo em igual medida.
A mãe não desliga, não pausa, está sempre alerta. Ao ruído de um choro, desperta em um sobressalto. É colo, é calor, é carinho, é comida. Quem traz alguém à vida não é o médico. Chamam de “dar à luz”. É uma doação: a mulher dá um pedaço de si. Um pouco que é tudo: um pouco do seu sangue, dos seus ossos, das suas células. A luz chega primeiro, é movimento constante. Assim é também a tarefa da mãe: fazer de uma faísca de existência uma continuidade que dure a eternidade de uma vida. É ela, a mãe, quem sustenta essa criação.
Meu filho ainda está aprendendo a dormir, então sempre resiste ao sono. Adormece no colo só depois de 20 ou 30 minutos. Canto, gingo o corpo, troco a fralda, a roupa, a posição… e lá se foram até duas horas em claro no meio da madrugada. Já fechei o olho e tombei para frente com ele nos braços. Mesmo com tudo isso, ao colocá-lo no berço, às vezes, desperta em cinco minutos. E ainda sorrindo para mim. Deve ser da minha cara de raiva que está dando risada.
Uma coisa sagrada em meu lar são as sonecas do bebê. Ao conseguir fazê-lo dormir e colocá-lo no berço lentamente, sem que desperte, saio na ponta dos pés do quarto, correndo, prendendo a respiração. Durante as sonecas, não sei se tomo banho, como, vou ao banheiro, faço tarefas domésticas, resolvo alguma pendência do trabalho, apenas relaxo ou só choro baixinho longe dele para não o acordar. Às vezes, enquanto decido, ele desperta e eu me enfureço.
Durante uma noite em que o ninei e o coloquei no berço, estava exausta pelos dias sem dormir direito. Passei o dia de pijama e não consegui tempo nem para comer. As costas gritavam de dor e as olheiras já eram minhas companheiras. Assim que ele permaneceu paradinho, virei-me para a janela e lá estava uma luz brilhante. Pensei: “Quem foi o desgraçado que acendeu essa luz? Vai acordar o meu bebê!”. Quando pus os óculos, pronta para xingar meu vizinho, dei-me conta de que estava com ódio da lua.
Não há pessoa no mundo que diga ser contrária à vida. Muitos falam como se amor, felicidade e família fossem o pacote completo da existência. Mas tal coisa sagrada, sublime e surpreendente, muitas vezes, é apenas um exercício solitário orquestrado por uma mãe. Sem fogos, sem louros, sem valor. É uma dedicação exclusiva, pois muitas vezes somos obrigadas a esquecer de nós mesmas.
Há dias em que a exaustão queima a minha carne e a mente é tomada por uma voz raivosa que grita cada vez que algo sai do meu controle. Ela diz coisas horrorosas. Sou atravessada por um ódio incontrolável e tento, de todos os modos, represar essa emoção para que não atinja meu filho. Tento compreendê-la e protegê-lo. Mas é muita pressão, e ela não se esgota se eu a reprimir. Ela fica em mim e me consome. Já soquei o sofá, gritei com as mãos abafando o som da minha voz, gritei no travesseiro, corri para o outro cômodo, pulei e me balancei até cansar e, quando voltei, meu bebê estava em prantos.
O ódio: tenho certeza de que não é do meu filho. Ele nasce de cada palavra que enaltece a vida sem querer pagar o custo da sua criação e permanência. Não sei quantas vezes já ouvi o provérbio indígena de que “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Onde está essa multidão de gente para colaborar com a criação da humanidade? Pois ela está acontecendo, sem holofotes, dentro da rotina de cada mãe, quase sempre atrás da porta de um quarto onde ela tenta fazer o seu filho dormir.
Quem inventou a palavra exaustão talvez não soubesse o que é ser mãe para a maioria de nós. Endeusam como sacrifício o trabalho materno, mas romantizar todo o peso não o faz virar pluma. Será que a vida precisa crescer dentro do nosso corpo por meses, sair em um rompante absurdamente doloroso e necessitar de nossa atenção 24 horas por dia para que sejamos impelidos a reconhecer a sua importância?
E há quem diga: “Estamos ocupados trabalhando!”, mas qual é o trabalho mais importante senão o da criação da vida? Que tipo de mundo criamos quando não investimos na criação da humanidade? A preocupação máxima parece ser: “Que futuro vamos deixar para nossos filhos?”, mas eu pergunto: Que filhos vamos deixar para o futuro? Como estamos cuidando de nossas mães?
Outro dia, cheguei a questionar se amava o meu filho, tamanho o ódio que senti quando estávamos só nós dois. Imediatamente pensei: “Eu daria a minha vida por ele!”. Depois, refleti: como puderam fazer do amor uma palavra bonita usada para explorar mulheres e exigir delas a renúncia de si? O amor não é isso.
Em uma madrugada, o bebê não queria dormir e já tinham se passado horas. Deitei com ele em meu colo e, naquele momento, pensei que só queria ser um robô: não queria sentir ódio, raiva, dor, amor, nada. Olhando para o feixe de luz da luminária, ele dormiu.
Escrito por: Ana Paula de Souza Campos – Instagram: @hum.ana144
Revisão: Bibianne Terra





