Quando pensamos no Dia das Crianças, é quase automático imaginar brinquedos, presentes e vitrines coloridas. Afinal, quem não gosta de ver o brilho nos olhos de uma criança ao abrir um pacote? Eu gosto de perguntar também: O que, de fato, uma criança leva para a vida?
Talvez ela não se lembre da boneca que ganhou aos quatro anos ou do carrinho que desejava aos seis. Com o tempo, os brinquedos quebram, ficam pequenos ou são esquecidos no fundo de um armário, já as lembranças, permanecem.
É curioso como as memórias mais marcantes da infância quase nunca estão ligadas ao valor de um presente. Elas costumam nascer de coisas simples: uma cabana feita com lençois na sala, um bolo preparado junto com a avó, uma tarde correndo na chuva, um piquenique improvisado no quintal ou uma história contada pela centésima vez antes de dormir. Esses momentos têm algo em comum: todos aconteceram enquanto alguém dedicava tempo à criança.
Vivemos uma época hiper conectada em que a infância é muito estimulada e tem agendas cada vez mais cheias: inglês, natação, futebol, ballet, reforço escolar… Entre uma atividade e outra, sobra pouco espaço para brincar.
Brincar é uma forma excelente de a criança aprender. Durante as brincadeiras, especialmente as de faz de conta, a criança desenvolve habilidades fundamentais para sua formação. Ao imaginar personagens, criar histórias, negociar regras e resolver pequenos conflitos, ela exercita a linguagem, a criatividade, a capacidade de resolver problemas e a compreensão do outro.
Quando uma caixa de papelão se transforma em foguete ou uma colher de pau vira microfone, o cérebro está trabalhando intensamente. Não é “apenas uma brincadeira”. É a criança aprendendo a representar o mundo, organizar pensamentos, experimentar papéis sociais e construir significados.
Há outro aspecto que merece nossa atenção. Nos últimos anos, muito se tem falado sobre as funções executivas (um conjunto de habilidades que nos permite controlar impulsos, manter a atenção, planejar, esperar a nossa vez e resolver problemas). Essas capacidades são essenciais para a aprendizagem e continuam se desenvolvendo ao longo da infância. Elas também são fortalecidas durante as brincadeiras.
Pesquisas mostram que atividades lúdicas, especialmente aquelas em que a criança cria regras, espera sua vez, muda estratégias e imagina diferentes situações, favorecem o amadurecimento dessas habilidades, que serão importantes dentro e fora da escola.
Talvez por isso seja tão preocupante perceber que estamos, sem querer, substituindo momentos de brincar por uma rotina cada vez mais desgastante. É claro que aprender um novo idioma, praticar um esporte ou estudar música traz benefícios importantes. O problema é oferecermos muitas oportunidades e não pensarmos no tempo livre para inventar, errar, sentir tédio… Nós, adultos, costumamos acreditar que precisamos entreter as crianças o tempo todo. Quando elas dizem “não sei o que fazer”, logo pensamos em uma tela, um brinquedo novo ou uma atividade organizada, mas é justamente nesse vazio que a criatividade costuma aparecer. A criança observa uma almofada e constrói um castelo, transforma um galho em espada, conversa com as bonecas. Aquilo que parece simples para nós representa um enorme exercício para o cérebro. É durante essas experiências que ela aprende a planejar, imaginar, persistir, negociar e criar soluções. Nenhum aplicativo consegue substituir isso perfeitamente.
Neste Dia das Crianças, talvez o maior presente não esteja embrulhado. Talvez seja desligar o celular por alguns minutos e sentar no chão com a criança, aceitar um convite para brincar de casinha, montar um quebra-cabeça sem pressa, fazer uma guerra de travesseiros, ler uma história usando vozes diferentes para cada personagem ou simplesmente caminhar de mãos dadas até a praça mais próxima.
As crianças não esperam pais perfeitos e não precisam de brinquedos caros para serem felizes. O que elas desejam, e o que realmente favorece seu desenvolvimento, é algo muito mais valioso: adultos disponíveis. Porque, no fim das contas, a infância passa depressa, elas crescem, os brinquedos serão trocados, mas o tempo compartilhado continuará existindo naquilo que nenhuma criança esquece: a sensação de ter sido amada.
Desejo profundamente que possamos sempre oferecer aos nossos pequenos menos pressa, menos cobranças e mais presença.
Referências sugeridas:
- QUEIROZ, N. L. N.; MACIEL, D. A.; BRANCO, A. U. Brincadeira e desenvolvimento infantil: um olhar sociocultural construtivista. Paidéia, 2006.
- CORDAZZO, S. T. D.; VIEIRA, M. L. A brincadeira e suas implicações nos processos de aprendizagem e de desenvolvimento. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 2007.
- CRESPI, L.; NORO, D.; NÓBILE, M. F. As potencialidades do brincar para o desenvolvimento das funções executivas na Primeira Infância. Debates em Educação, 2020.
- TOMAZ, R. F. S.; LEÓN, C. B. R. Intervenções em funções executivas na primeiríssima infância: revisão da literatura. Cadernos de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, 2021.





