Outro dia, minha filha contou que estava num grupo em que todos compartilhavam o posicionamento homofóbico dos pais. Cada pessoa dava um relato mais assustador sobre os traumas que carregava por conta desse preconceito, os impactos na sua rotina, a sensação de não-pertencimento e não-aceitação. Quando perguntaram como era a mãe dela, para espanto de todos, minha pequena respondeu que não sou assim. Pelo contrário. Contou que sempre falei para ela: filha, você pode namorar até uma pedra, porque se essa pedra te fizer bem, vou achar ótimo.
Talvez isso tenha causado sua exclusão no meio dos que são excluídos pelo preconceito de suas famílias. Sei lá. O fato é que, ao me comparar com outros pais tão diferentes, ela parece ter ficado orgulhosa de mim. Tão orgulhosa, que sugeriu que minha próxima crônica fosse sobre esse tema. Mais especificamente, sobre essa frase que repito tanto: “por mim, você pode namorar até uma pedra”.
Confesso minha dificuldade de desenvolver o assunto. Aceitar que minha filha (e todas as outras pessoas) seja livre para exercer sua orientação sexual não me parece ser mais do que minha obrigação. Não me torna uma super mãe, nem uma mulher excepcional, somente uma pessoa íntegra. Me esforço para não ser preconceituosa, não somente a respeito da sexualidade, mas também sobre gênero, raça, religião, idade e todas as demais características que eventualmente são objeto de discriminação. Tentar não ser preconceituosa me parece ser o mínimo, meu objetivo vai além, é tentar combater o preconceito.
Pensei em escrever sobre o combate à homofobia, mas tudo o que me vem à cabeça me parece tão óbvio, que fico com preguiça. Aceitar que minha filha exerça sua sexualidade me parece ser tão básico quanto saber que ela precisa respirar, se alimentar e dormir.
Segundo a OMS, a sexualidade é fundamental para saúde e bem-estar. Por que então alguém tentaria reprimir uma necessidade básica de alguém que amo muito, como um(a) filho(a)? Enfim, confesso minha falta de afinidade com os pais que não enxergam esse contra-senso. Provavelmente, não são pessoas que costumam ler e gostar dos meus textos.
Outra possibilidade seria escrever sobre a ideia da pedra. Mas essa pedra é tão genérica, que fica difícil defini-la. Afinal, a pedra pode ter quaisquer características e por mim estaria tudo bem. Contanto que a tal pedra faça bem para minha pequena. Isso é, independentemente de sua orientação sexual, o importante para mim é que minha filha tenha saúde (física e mental), conquiste sua independência e construa seu futuro de forma responsável e ética. Ou seja, que não se torne ela mesma uma pessoa preconceituosa. Nesse ponto, dou o exemplo, torcendo para ela seguir meus passos.
Mesmo eu estando tão aberta a quase todas as possibilidades, claro que minha filha se empenhou para testar meus limites e descobrir se haveria algum relacionamento dela que eu reprovasse. Se alguma pessoa que ela escolhesse me faria dizer: uma pedra seria melhor. Mas isso já é outro assunto, fica para a próxima crônica.
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