Coluna – Filme: Morra, Amor

E se tudo o que você sabia sobre si mesma de repente se deslocasse para fora da sua vida? Você ainda seria a mesma?

Grace encontra-se com o fundo do poço de uma solidão implacável quando, no pós-parto, passa dias e noites isolada. Quando ela, ainda grávida, e o marido chegam à casa nova, a perspectiva de um lugar tranquilo, silencioso e cercado pela natureza se coloca como um ótimo plano de vida para que ela desenvolva sua escrita. Mas a realidade da rotina cansativa e monótona da maternidade se impõe inexoravelmente quando ela se vê realmente só.

Essa solidão não reside apenas no fato de ser a única adulta presente durante quase todo o tempo. Trata-se de uma solidão que muitas mulheres conhecem: a que sentimos quando somos privadas de estar com o nosso verdadeiro “eu”. É comum ouvir que, quando nasce a mãe, a mulher que existia antes se perde em algum lugar entre mamadeiras, fraldas, noites em claro e um corpo que já não lhe pertence em diversos sentidos. Gosto de pensar que essa mulher fica à espreita, reaparecendo toda vez que se ouve uma música, que se faz algo prazeroso, que se encontram amigos ou que se aproveita uma saída a dois. No entanto, para a protagonista de Morra, Amor, filme de Lynne Ramsay baseado no livro de Ariana Harwicz, esses encontros furtivos e rápidos consigo mesma não são suficientes.

Com um marido ausente e nada sensível ao estado delicado em que ela se encontra — ou se perde — cada vez mais, além do isolamento físico, seu latente espírito aventureiro, extrovertido e um tanto selvagem entra em choque com a nova rotina. Jennifer Lawrence entrega uma atuação intensa e perspicaz, dando um tom equilibrado de desespero letárgico e impassividade contida à personagem, que busca impiedosamente escapar de um espaço onde, definitivamente, não cabe.

As atuações de Robert Pattinson e Sissy Spacek também estão na medida certa para construir o tom sombrio e realista que leva o espectador a compreender o lugar de onde emerge toda a fúria apática que paradoxalmente constitui essa mãe prestes a implodir. E ela implode. Em devaneios, em raiva incontida, com toda a intensidade que o mundo costuma negar a uma mulher.

E então, como voltar dessa beira de precipício? E, quando voltamos, como voltar a ser quem éramos, se essa mulher, efetivamente, já não é mais a mesma?

Disponível em: https://mubi.com/pt/br/films/die-my-love?utm_source=where_to_watch

Autor

  • Regina Miranda

    Regina Miranda é autora de três livros publicados com a editora Caravana, sendo um deles o infantil "O sabor das coisas", cuja história foi co-criada com a filha, de cinco anos na época. Também participa de coletâneas como com o Selo OfFlip, e publicações em revistas digitais, como a Revista Intransitiva. Apaixonada pelo universo da literatura, é formada em Letras pela UFPR com especialização em Educação a Distância pelo Senac. Já foi professora no ensino fundamental e, hoje, leciona aulas particulares de produção de texto, além de participar da organização do Clube de Leitura Feminista em Curitiba, onde mora atualmente. Divulga seus trabalhos literários e reflexões diversas pelo perfil de Instagram @reginaliber2020

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal