Direto da cabaça-ventre com as águas sagradas de Osun, nasceu a menina-trovão. Ainda pequena borboleta, bailava em círculos como quem anunciava uma tempestade de dores e delícias na vida da mãe. Maternar então. O corpo já avisava, seria vento – daqueles que arrastam as certezas, que limpam o espaço para o novo, e um raio que cega e rasga a rotina. O nome dela, feito um redemoinho-anúncio, também já pulsava cá dentro.
Ayana (bela flor) em diálogo com Carolina, a mulher do povo, minha femenagem à Maria de Jesus. Na variedade de nomes que sempre nos estrangeirou, fizemos a nossa subversão. O dela veio feito herança nas páginas de um livro infantil da Kiusam de Oliveira — ela também carrega o seu sobrenome, minha filha. Fazer silêncio e guardar esses significados é minha contracolonização. Um mistério protegido na nossa própria língua literária, nosso código binário de reverência a quem veio antes para abençoar os nossos novos dias. Na moringa de nossas memórias, um gole de água fresca e uma conversa no nosso dialeto, a cura diária no meio do concreto.
A maternidade tem diversas camadas. Umas me acolhem, feito aquele cobertor quentinho em dias frios; outras simplesmente me esmagam. Tem dias que sou abrigo, noutros sou ausência de mim, ventre e vazio, força que cede, afeto que resiste. Maternidade real é cobertor curto: se cubro a filha, fico no frio — e, para a mãe, ninguém estende o pano. Carrego nos braços o que ninguém vê nos ombros: o peso bruto de subir as ladeiras do bairro, de lembrar dos remédios e de todas as vacinas, de planejar e garantir a rotina, a comida na mesa, calcular o preço dos centavos no mercado e equilibrar os esmagadores prazos os quais, mesmo com a cria nos braços, exigem que eu os cumpra e sem atrasos.
No silêncio de mais uma madrugada em claro é que ainda escuto os barulhos da rua, enquanto o mundo me faz trabalhar dentro e fora de casa para sobreviver e sustentar pesos que já não cabem mais no peito, os mesmos que não tenho o privilégio de escolher soltar. Na matemática injusta do abandono afetivo, alguém escolheu a leveza da ausência, enquanto eu ainda preciso ser a IA placa-mãe com mil defeitos, que ainda insiste em funcionar, sem desmoronar. Erro 404: autocuidado não encontrado em nenhum código de programação já antes configurado. Foi no escuro das noites que demoram a acabar que me revelei SOLO.
Noite após noite e dia após dia, precisei me enterrar nas profundezas das águas do puerpério para nutrir e curar as raízes de mim mesma e então não me vi sozinha. Vi-me assim: um território de grandezas. Entendi que ser solo é habitar a própria terra ferida onde a vida teima em continuar viva. Mesmo rachada pelo cansaço, continuo sendo solo, só que, agora, ainda mais sagrado. Quando tudo falta, o chão fica e a mãe solo vira adubo. E virar adubo é meu anúncio mais bonito: a certeza de que minha semente de gente cresce firme e forte para o mundo, alimentada pela força das minhas águas e pela teimosia das minhas próprias terras.
Texto: Aline Mariano de Oliveira – @aline_escreve
Revisado por: Angélica Filha





