Poesia – Cem reais

(…)

Dá pra comprar bastante coisa!
Gastei cem reais, veja, minha sacola, tá cheia!
Satisfação. Júbilo. Alegria.
F – E – L – I – C – I – D – A – D – E
No rosto. E na bolsa que se faz leve
Felicidade é coisa que não pesa
Ela tira um iogurte de sachê, daquela marca famosa, da bolsa
Dá pra menina pretinha, rechonchuda, nada rosa, de rosa
Parece uma bonequinha, que coisa linda! Vontade de morder!
O pai daquela mulher preta enorme, segue ao lado, mudo.

Subimos devagar, conversando
Ela mora lá em cima.
Você mora na Aldeia?
Não! Deus me livre!
A Aldeia é muito longe.
(Ninguém quer morar na Aldeia)
Mostra a luz da sua casa
Estou chegando a minha

Com nosso carro cravejado de tiros na porta

Ela acha que está longe da Aldeia
Eu moro antes dela
E acho que estou perto
O morro é um morro baixo
Estamos todos a poucos metros
Minha casa a metros da dela
A casa dela a metros das casas da Aldeia
Estamos todos no mesmo lugar
Não estamos (?)

Eu subo a pé porque o celular descarregou
Venho de um dia de passeios
Uber moto 10 reais, lanche 12 reais, almoço 47 reais, lanche 12 reais
Em passagens, não faço ideia quanto gastei
Subo sem sacola ou criança
Não carrego o sonho de “entrar num mercado e comprar o que eu quiser”
Comprar comida, o sonho de uma mulher
Dessa mulher que caminha comigo

Já subi muito com a sacola, com a criança
Para pouco acima de onde moro hoje
Carregava minha bolsa, a dela e a mesma sacola
Cheia com o sonho de encher
Sem medo de não passar no caixa
Vergonha. Pobreza dá vergonha

Olho as sacolas de novo.
A dela, concreta, real, ali.
A minha, abstrata, na memória.
Já tive que fazer mais milagre que muito santo
Com cem reais
Pouco menos, ou pouco mais.
Não pude ter vontades, não as tive.
Emudeci sobre, à época.
Soube ser muda, precisei
A criança no colo na chuva, as laranjas rolando pelo chão
“Lá em cima”… Mais perto da Aldeia
Foi praticamente ontem

Penso sobre quem somos aqui onde estamos
E sinto fortemente, por nós
Alegres, tagarelas
Ou tristes, mudas
É como se as compras felizes
Fossem minhas também
Não chove e é tranquila subida
Corre um ventinho refrescante
O dia terminou bem para nós
Estou satisfeita e aliviada
Por não ter agora a obrigação de nutrir
É, estou a alguns metros
E cem reais distante
Da mulher que acompanho
E da que fui.
Mas isso é perto
E dentro de mim.
Feliz por isso também.

Por Ticyane Madeira Cavalcanti

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