Sou aquela que vive o autismo.
No corpo, na alma, no sofrimento, na palavra não falada, no olhar querendo entendimento, nas lágrimas escorridas por querer ser compreendida.
A minha vivência materna me faz ver, ouvir e imaginar diferentes autismos que desfilam em minha frente.
O autismo que espera um neurologista do SUS há anos e faz uma terapia semanal, em grupos, no posto da vila.
O autismo que foi descoberto precocemente e hoje consegue acompanhar a turma da escola, enchendo a mãe de alegria.
O autismo cheio de ramificações que atrasam porque hoje é o intestino, ontem foram os dentes e amanhã ninguém sabe…
O autismo que quer atenção da mãe a todo momento, sufocando-a, sem rede de apoio.
O autismo que acha a escola tediosa e ultrapassada, pois nada lhe parece inovador.
O autismo que isola, que limita, que faz a família se reinventar para sobreviver.
O autismo que machuca, que deixa marcas no corpo e na alma de todos que o cercam.
O autismo que modifica o olhar, que apura, que te torna seletivo e que percebe os olhares e expressões diferenciados.
O autismo que sempre esteve presente, mas era camuflado, abafado por máscaras sociais e muito desgaste, no final da noite…
O autismo que custa caro, que parece não se encaixar em qualquer classe social… É preciso se alimentar bem, ter terapias de qualidade, ter profissionais de apoio, praticar atividades físicas, ter lazer adaptado. Este autismo é limitante.
O autismo que consegue enxergar a beleza de uma estrela parada no céu e mostrar como a vida ainda vale a pena ser vivida através de um sorriso e um brilho no olhar…
O autismo que descobre a grandiosidade do mar e a alegria de sentir a água em sua pele, brincando em um mundo em que as sensações são intensas…
O autismo que foge da intensidade do barulho urbano do cotidiano e se machuca. Mas que se maravilha ao ouvir a beleza de uma música…
O autismo que traz consigo a liberdade para fazer coisas além do que é esperado e, ao mesmo tempo, te impede a fazer coisas simples, diárias…
O autismo que te leva a se superar, se surpreender, se fascinar…
O autismo que te faz sentir sozinho, que te isola…
O autismo que te faz sentir-se único, em meio a uma multidão padronizada.
Ah, os autismos…
Que te desgasta. Que te fere. Que te envelhece.
Ah, os autismos.
Que te lapida. Que te ensina. Que te torna mais humana.
Seguimos. E não desistimos. Atipicamente, resistimos.
Por Vania Rodrigues dos Santos – @mamae_writer_neurodivergencias





