Coluna – A mãe que perdeu seu pai

Desde minhas primeiras lembranças, minha vida sempre foi permeada pela certeza do amor incondicional do meu pai por mim. Independente da época, independente do que eu fizesse (e nunca fui uma filha fácil), independente de qualquer coisa. Afinal, essa é a definição de incondicional. Esse tipo de amor que parece uma lenda, sou testemunha de que existe.

Até então, esse amor incondicional sempre foi meu combustível. O que me dá forças para seguir em frente em tempos difíceis, para arriscar segura por contar com uma rede de proteção, para buscar meu lugar sabendo que tenho para onde voltar. Sempre pude me dar ao luxo de ser eu mesma, de lutar pelo que acredito, devido à certeza desse amor incondicional.

Só que agora, me despeço do meu pai e me percebo incapaz de me despedir do seu amor incondicional. Quem sou eu sem esse amor? Como é o mundo sem esse amor? O amor morre com ele, ou é possível guardar pelo menos um pouco comigo? Como faço para continuar tendo meu pai e seu amor? Olho as pessoas que já perderam seus pais e me pergunto como fizeram? Será que perderam somente uma pessoa, um pai? Ou perderam também um amor incondicional, como eu? Será possível transformar esse amor, que sempre foi um combustível sem o qual não vejo como seguir em frente, em um pilar? Algo que permanece sólido, com base em valores e comportamentos? Contando com símbolos, ritos e histórias do meu herói? 

Não sei se consigo. Tenho medo de não conseguir. Tenho medo da pessoa que sou/serei sem esse amor. Tenho medo do mundo sem esse amor. Medo de desmoronar mesmo sabendo que não posso, que minhas filhas precisam de mim. Medo de descobrir que esse amor é mesmo meu combustível, e me tornar um carro que parou por falta de combustível numa estrada deserta, ou no meio do tráfego causando engarrafamento. Medo.

E não importa o quanto eu grite (e grito bastante), o medo não vai embora. Grito no carro. Em casa. Na rua. No ombro do meu parceiro. Grito que quero meu pai, mas só quem aparece são o medo e a tristeza. Pela primeira vez, preciso de ajuda e não posso mais contar com meu pai. Grito e meu pai não vem. Grito e meu pai não pergunta tranquilamente “é um dragão?” como ele fazia quando eu gritava com medo de baratas e outros animais que apareciam na nossa casa.

Grito egoístamente que ainda preciso do meu pai, que ele não pode ir embora. Afinal, nunca fui uma filha fácil. Grito que ainda não aprendi a fazer tudo sem meu pai, e que talvez nem seja capaz de aprender nunca. Tento transformar o medo e a tristeza em raiva, por nunca ter aprendido. Por não ser capaz de aprender. Por ele nunca ter se tornado desnecessário, enquanto acredito que ser uma boa mãe para minhas filhas é me tornar desnecessária para elas. Mas a única raiva que aparece é de mim mesma. Por saber que, desnecessária ou não, nunca vou conseguir dar a elas o que meu pai me deu. Só que essa raiva não manda embora o medo nem a tristeza, somente se soma a eles.

Penso que essa é só a primeira vez que preciso de ajuda e não posso contar com ele. Saber que essa é minha nova realidade só aumenta meu medo. Não sei o que vem pela frente, podem ser inclusive dragões. Podem ser os mesmos problemas que eu não teria conseguido lidar sem meu pai. Mais uma vez, posso me ver impotente e incapaz, mas sem que meu pai cuide de tudo para e por mim. Quero o meu pai, mas não o tenho mais. Quero sentar na minha janela do quarto de criança, olhando a Pedra da Gávea e para a primeira estrela que aparece no céu, ouvindo Marillion no meu discman. “There is no childhood ‘s end”. Mas não, o tempo não volta, não tenho mais meu pai, nem a janela, muito menos o discman. A infância acabou faz tempo e agora preciso aprender a ser adulta sem meu pai. Sem seu amor incondicional.

Queria conseguir transformar o amor dele em legado, em memória. Mas por enquanto só enxergo o vazio que ele deixa. Me faltam crenças para sustentar essa transformação. O que faz sentido para os outros, não faz para mim. Como sempre. Só que agora, sem contar mais com meu pai, ser diferente e não pertencer ganhou um peso extra que não sei se consigo carregar. Preciso do meu pai, continuo precisando, acho que precisarei para sempre. 

Meu pai dizia, e com toda razão, que nada nunca era suficiente para mim. Nunca fui uma filha fácil. Exageradamente intensa. Agora, mais uma vez, isso se confirma. Sou grata, extremamente grata, por todos esses anos em que contei com ele. Mas minha gratidão vem acompanhada de querer mais. De não me conformar por não ter mais. De saber que preciso de mais. Até que a morte nos separe é pouco para mim, preciso do meu pai para sempre. Até a minha morte também. Para acreditar que sou capaz de tudo o que ele me achava capaz. Para me enxergar nos olhos dele e a partir daí me construir ou reconstruir. Para ter limites mínimos necessários para manter meus pés no chão.

Como diria meu pai: “É, malandro, tá pensando que é moleza, mas é dureza.” É tão dureza, que uma parte de mim contraria fatos e dados e acredita que esse é só mais um susto que estamos levando com a saúde do meu pai. Que daqui a pouco ele volta para casa abatido e começa a se recuperar. Como tem sido em tantas ocasiões em mais de vinte e cinco anos. Meu pai já driblou tanto “Zé Maria”, que passei a acreditar na sua imortalidade. Parece que daqui a pouco vou dizer que estou muito feliz do meu pai ter voltado para casa. Como já aconteceu tantas vezes e por tantos motivos. Que vou deitar a cabeça no peito do meu pai, igual fiz há poucas semanas, no aniversário dele. Que vou repetir ao meu pai que eu e minhas filhas precisamos muito dele, porque essa é a verdade. Nenhum desses sustos me treinou para o momento em que meu pai não volta para casa. Jogo é jogo, treino é treino. Nunca me saí bem nem nos treinos, muito menos em jogo. Nunca fui uma filha fácil, não consigo ser fácil justamente na hora de me despedir do meu pai.

Pai, obrigada por sempre ter transformado meus sonhos em nossa realidade. Sempre não, até agora. “Sempre” incluiria o que ainda vem pela frente. Esse futuro assustador sem seu amor condicional. Gostaria de fazer como você e conseguir transformar os sonhos das minhas filhas em nossa realidade. Mas seu benchmarking é alto demais e mesmo meus sonhos estão escapulindo entre meus dedos.

Não quero terminar de escrever esse texto, porque será como colocar o ponto final que estou tentando driblar. Posso continuar com parágrafos e parágrafos sobre momentos e lembranças nossas. Ou sobre tudo o que você já fez para suprir as lacunas da minha maternidade solo. Não farei isso, não continuarei esse texto infinitamente. Posso ainda não conseguir transformar seu amor incondicional em legado, mas sua presença nos meus quarenta e oito anos estão mais do que registradas em mim, não preciso colocar aqui cada detalhe.

O fato, pai, é que o mundo, sem seu amor incondicional, é um mundo triste. Espero que não seja inabitável para seres da minha espécie, porque minhas filhas precisam de mim e uma delas também não é uma filha fácil. Sorte nossa, que até agora contamos com você. O pai que ama incondicionalmente as filhas (e netas) difíceis. Nós duas teremos que descobrir, sozinhas e juntas, como é o mundo sem seu amor incondicional. Como viver sem você e seu amor incondicional. Darei meu melhor pai. Por mim, por ela, por elas e por você. Assumo com você o compromisso de fazer até mais do que acredito ser capaz. De tentar dar continuidade a tudo o que você vinha construindo e cultivando. Nunca tive um desafio tão grande, muito menos sem contar com sua ajuda. Mas sei, pai, que você deixou todo esse amor incondicional tentando me dar ferramentas para construir esse futuro. É hora de deixar de ser uma filha difícil e canalizar minha energia nos meus outros papéis. Não pretendo te desapontar, pai, onde quer que você esteja.

Autor

  • Marcia do Valle

    Márcia do Valle é mãe da Julia e da Clara, madrasta da Maria, feminista e carioca. Além de engenheira e mestra em administração de empresas, também  é autora dos livros "180 Graus" (Editora Marco Zero) e "Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?" (Editora Adelante). Atualmente divulga seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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