“Mães de anjo” também são mães

Existe uma dor que muitas mulheres carregam em silêncio: a dor de amar um filho que não puderam segurar nos braços, nem ver crescer. A dor de quem gerou, por semanas ou meses, uma vida que não seguiu adiante. Uma perda que o mundo, muitas vezes, minimiza, afinal de contas, essa criança não chegou a nascer. Mas o coração de mãe reconhece. E reconhece todos os dias. 

Para a mulher que já viveu a perda de um filho durante a gestação, eu preciso te dizer com clareza: você é mãe! E sua maternidade não pode ser apagada ou invalidada, nem mesmo no Dia das Mães. 

O terapeuta e filósofo Bert Hellinger nos ensina que todo filho que passou pela vida de uma mulher pertence ao sistema familiar, independente dessa criança ter chegado a nascer ou não. Esse filho tem um lugar e esse filho deixou uma mãe. 

No entanto, existe uma camada social e, muitas vezes, religiosa, que nos ensina que filhos são “bênçãos concedidas” e não vou discordar disso. Mas, a ausência deles, portanto, seria falta de merecimento dessa benção? Esse olhar é cruel e pesa sobre mulheres como uma sentença silenciosa. E numa tentativa de consolo, essas mulheres ainda escutam coisas como “logo vem outro”, como se filho fosse substituível. 

E o casal? Quantas vezes casais sem filhos são vistos como incompletos, como se lhes faltasse algo essencial. Há uma cobrança velada, um olhar social que insiste em corrigir, preencher, apressar o que é, na verdade, um processo íntimo, delicado e muitas vezes, doloroso. 

Falar de perdas gestacionais representa um tabu. Fato é que não podemos negligenciar a sua existência. Ao mesmo tempo, falar como, se esse é um assunto de que não se fala? Ou que se fala com ressalvas, desconforto e até com pressa em mudar de assunto. A dor existe, mas ela não pode aparecer.

Nessa narrativa toda, ainda há o estigma que percebo como o mais injusto de todos: o medo da inveja. Como se mulheres que não puderam levar uma gestação adiante fossem ameaça à felicidade de outras. Se essas mulheres tivessem algum poder sobre a vida, elas provavelmente não usariam para tirar. Elas usariam para manter viva a gestação que não puderam viver como sonharam (ou ainda sonham). 

Não poder segurar um filho nos braços não é falta de merecimento, não é punição. Perda é perda e merece respeito. A maternidade começa no vínculo e esse vínculo não pode ser apagado. Especialmente quando uma mulher perde o seu filho. E mesmo que ela o tenha perdido, ela já se tornou MÃE e isso ninguém pode tirar dela.

Por Larissa Gomes – @larissagomespsicologa

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