– A zamioculca é uma planta que gosta de sombra. Suas folhas, mais grossas do que as das outras plantas, nascem em um caule em forma de cone que brota da raiz.
Meu pai, professor de ciências na escola onde estudo, responde assim à minha pergunta sobre aquele amontoadinho de folhas, grudadas umas nas outras, que um dia resolveu aparecer na terra do vaso grande.
Tudo porque eu queria saber o que era aquele toquinho verde que de repente surgiu bem ao lado do caule grosso da tal zamioculca. Papai continua sua aula particular para mim falando nomes difíceis de partes da planta; outras coisas mais estranhas ainda como ciclo, clorofila, foto… alguma coisa. Foto eu sei o que é: mamãe tem pastinhas amarelas no computador que quando ela clica em cima com o mouse, a pastinha se abre e mostra tantas fotos de mim, da família e dos lugares onde estivemos, que mal cabem na tela.
Foto… foto… o que meu pai disse mesmo da zamioculca? Não peguei. Fico olhando para ele, maravilhada por conta da aula que dá tão contente só para mim. Até que sinto o sono fechando os meus olhos.
Para disfarçar e não magoar o meu pai porque ele ia achar que a aula está muito chata, olho de novo para o toquinho verde, imaginando ele grudado nas raízes grossas da planta embaixo da terra molhada. Será que eu nasci assim também? Acho que eu fui uma plantinha-toquinho-verde que cresceu. Quando eu não cabia mais no vaso, a mamãe me tirou de lá e me deu bastante leite, todos os dias, para que meus bracinhos brotassem e ficassem beeem longos, e assim eu poderia levantá-los pedindo colo.
Será que esse toquinho verde de agora é minha irmãzinha, por isso papai e mamãe cuidam tanto dele, se preocupam em me pedir que não machuque os galhos da zamioculca porque ela está ajudando a bebê a crescer?
O cheiro da terra molhada no vaso sobe até o meu nariz. Adoro esse cheiro: me lembra os dias depois da chuva quando caminhávamos ao lado de um terreno vazio aqui perto. Nunca vi uma zamioculca nesse terreno. Talvez não seja seguro para as bebês crescerem em terrenos vazios do bairro: o lugar delas é em vasos nas salas das casas.
Foto… Foto… Ah, lembrei! Fotossíntese! Foi isso que meu pai disse – que a planta precisa fazer fotossíntese. Eu sabia que não ia me esquecer: a tia Marísia da escola não cansa de me elogiar por causa da minha memória fantástica. É assim mesmo que ela fala: – Você tem uma memória fantástica!
Tão fantástica, que sempre sou a escolhida para decorar aqueles textos enooormes e recitar todos eles nas comemorações da escola. Eu não entendo tudo o que os textos dizem, são tantas as palavras estranhas: revolução de 32, forças armadas, presidencialismo. O que faz um presidente? O que é revolução? É uma briga? E o pior: se tem a de 32, com certeza tem a de 31, a de 30… Só sei que na hora de recitar os textos, digo palavra por palavra, com o ritmo certo e a voz clara. A tia Marísia sempre me elogia: – Muito bem, você recitou todas as palavras, com o ritmo certo e a voz clara.
Gosto do som dessas palavras compridas e complicadas: elas parecem que escorregam da garganta, fazendo cócegas na língua quando as digo em voz alta no palanque, na frente de todas as crianças da escola.
Za-mi-o-cul-ca. Fo-tos-sín-te-se. Vou perguntar à mamãe o que é isso. Talvez ela tenha uma boa explicação para tantas letras e sons numa só palavra. Ou seriam duas palavras?
Aproveito o momento em que meu pai para de falar comigo e volta a regar os outros vasos da sala, para correr até o escritório. Mamãe está lá abrindo pastinhas amarelas no computador.
– Mãe, o que é fotossíntese?
Ela olha para mim com seu sorriso quentinho. Com certeza, também acha que eu digo essa palavra tão complicada no ritmo certo e com a voz clara. Como a tia Marísia sempre me diz.
– É o que as plantas fazem com a luz do sol para fabricar a sua própria comida.
Tomo um susto: dá para fazer comida com a luz do sol? Como assim! A luz tem um calorzinho bom, mas pode queimar a pele se a mamãe não me lambuza de protetor solar quando vamos à praia. Só que a gente não consegue pegar a luz na mão: eu já tentei e quando olhei lá dentro, pela abertura que fiz nos dedos da minha mão fechada, não vi mais a luz. Vi só a escuridão.
Não consigo entender… Como a zamioculca pode tirar da luz do sol a sua própria comida? E se a minha irmãzinha nasce dessa planta, ela também vai poder fazer isso? Eu faço isso e não sabia?
Minha cabeça confusa começa a doer e meu coração parece afundar no peito. Sinto as lágrimas inundando os meus olhinhos verdes e, antes que elas rolem até minha boca apertada, estico meus bracinhos de leite e peço colo.
Por Linei Matz – @lineimatz





