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Fim de tarde numa cidade do interior de Minas Gerais. Uma rua sem saída, ouvia os sons de carro passando na esquina. Meu coração acelera quando subo na moto com a minha amiga e o pai dela. De tão robusta parecia convidar os seus passageiros a sentarem lado a lado.

Não recordo se eu quem pedi ou se foi ele quem ofereceu uma carona até minha casa. Eu, a última da fileira, abraçava a cintura da minha amiga com um sorriso quase sonoro e congelado no rosto. Talvez pelo possível perigo que existia ali.

Com o vento e sem esforço eu senti o cheiro do xampu que vinha de seu cabelo pesado. E sendo esse cheiro insuficiente pra minha curiosidade, encostei o meu nariz no ombro dela e puxei o cheiro pra dentro dele. Quase senti o gosto.

Havia um sentimento único, experienciando pela primeira vez em um ato impulsivo e quase involuntário de conhecer o cheiro de uma pele que não a minha e concluir que as peles têm cheiros distintos.

Diante da epifania, não me lembro da despedida no momento em que cheguei em casa. Busquei a chave na minha mochila escolar. Não encontrei fácil porque meus olhos estavam na verdade olhando para aquela moto que ia embora. Senti o molho de chave na mão, girei a chave e a maçaneta gelada de ferro. O ronco da moto competiu com o barulho da porta de vidro batendo. Eu tinha uma emoção nova.


Autora: BÁRBARA BENITEZ – Nascida em São Paulo, médica veterinária mestre em nutrição de cães e gatos. Tem publicações no meio acadêmico e científico e este ano irá lançar seu primeiro livro infantil onde o tema central é a homoparentalidade materna. Está escrevendo um livro de crônicas centrado no descobrimento e cotidiano lésbico.

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