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Lendo as notícias sobre a descriminalização do aborto na Argentina e na Coreia do Sul, ao mesmo tempo em que assistia, pela quinquagésima vez, a sequência de filmes Toy Story com meu filho de quase 4 anos – situação que qualquer mãe de crianças pequenas, em casa, no meio de uma pandemia, bem conhece –, eis que meu olhar (re)descobriu a Betty.

Nas duas primeiras animações, era uma lady. Voz doce e suave, como se espera de uma “boa mulher”. Pastora das ovelhas Abel, Muriel e Mariel, vivia, no papel coadjuvante, para iluminar o quarto da irmã de Andy, Molly, e para apoiar, incondicionalmente, o cowboy Woody. Roupas rosadas, saia bufante e chapéu de camponesa. Boneca de porcelana, confirmava o ditado de que por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher. 

Não se tem qualquer notícia dela no terceiro filme até que surge, impactante e lacradora, como um “brinquedo perdido”, em Toy Story 4. Voz mais grave, firme e decidida, calças compridas azuis (ou jeans?), dirige um envenenado carrinho-gambá, dona do próprio destino. 

Paralelamente à história central dos filmes, a do carismático, às vezes chato, Woody, que vai da inveja e do ciúme, passando pela soberba e pelo medo do envelhecimento e da morte, até chegar na encruzilhada filosófica-ideológica-amorosa do último filme, há o enredo de Betty. 

No quarto Toy Story, a cena é dela. Lembrando a trajetória da heroína do conto “A Donzela sem Mãos”, teve os braços quebrados, perdeu-se, vagou errante por um sem-fim de caminhos até escolher o seu.

Foi propriedade de várias crianças, passou anos numa prateleira do antiquário, teve que aprender a se defender sozinha e a sobreviver a ambientes e brinquedos nada acolhedores. Quando um de seus braços cai novamente, remenda-o com fita adesiva de forma ágil, bem resolvida e humorada.

No decorrer de sua trajetória andarilha, desfez-se do abajur que impedia seus movimentos e abandonou a posição de apenas iluminar escuridões alheias. Vive como deseja. Com suas inseparáveis ovelhas, circula e exerce clara liderança no submundo dos brinquedos perdidos e, em sua relação com a amiga Isa Risadinha, sobram companheirismo e sororidade. Nunca a palavra e o conceito de empoderamento couberam tão perfeitamente em alguém.

Betty é livre e empoderada. Para Woody, perturbadora. A ponto de fazê-lo questionar até o propósito para o qual sempre viveu: servir e fazer feliz a criança que fosse sua dona. Em certo momento, parecendo até falar da liberdade de escolha quanto à maternidade, Betty comenta, do topo de um carrossel, olhando para um parque de diversões iluminado e colorido: “quem precisa do quarto de uma criança quando se pode ter tudo isso?”. 

Felizmente, Disney e Pixar tiveram que se curvar aos novos tempos, discursos e demandas. “Empieza el matriarcado”!


Autora: Christiane Vieira Nogueira é mãe do Otto, que tem 3 anos e 10 meses. Adora ver filmes e ouvir músicas com o filho. É servidora pública e está em processo de mudança de São Paulo para Fortaleza.  

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