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Não me lembro bem o ano, mas lembro exatamente o nome, o rosto e o sentimento de ser exposta e ridicularizada por um “homem branco”. Eu estava no colégio e um amigo do menino pelo qual eu tinha uma paixão platônica me disse que ele estava interessado em mim. Era a primeira vez que eu sentia aquele calorzinho bom no peito. Logo contei para minha melhor amiga (uma menina branca heteronormativa) que no momento pareceu muito surpresa. Creio que tenha passado pela cabeça dela, como a “neguinha”, “laque” (apelidos pelos quais os meninos me chamavam no colégio) podia despertar interesse em alguém e, após a surpresa, ela questionou o menino se era verdade e a resposta dele foi NÃO.

Ele disse que jamais se interessaria por uma menina como eu. Esse não ecoou durante muito tempo na minha mente e essa foi a primeira vez que percebi que ser uma menina negra, no ambiente onde transitava era um problema. Eu tinha mais ou menos 10 anos e entendi que o processo natural da adolescência, de se relacionar, se apaixonar, não aconteceriam normalmente ou da mesma forma que as minhas amigas. Eu fui uma adolescente imersa num ambiente com alunos brancos e professores brancos, os poucos negros que convivi ocupavam lugares de subalternidade.

Eu fui uma criança e uma adolescente silenciada. Lembro exatamente como riam de mim pelo modo como me expressava, pelo meu fenótipo (nariz largo, boca grande e grossa) e principalmente do meu cabelo. Os apelidos que surgiram nessa fase foram relacionados ao meu cabelo 4C. Lembro de cada um deles, mas hoje não sinto tristeza e nem tenho ódio dele, há alguns anos atrás tentava mudá-lo através de química. Hoje aprendi a aceitá-lo, cuidá-lo e amá-lo como ele é. Fazer essa cronologia de tempo é necessária, pois foram esses momentos que moldaram minha autoestima e por muito tempo me fizeram acreditar que eu não era digna de afeto.

O segundo “cara branco” por quem me apaixonei, após duas “ficadas”, tornou-se meu namorado e no momento em que me senti segura, decidi ter minha primeira relação sexual; porém no dia seguinte, sem nenhuma grande explicação ele decidiu terminar o namoro. Naquele momento eu só pensava que tinha que ser forte como minha avó, minha mãe e minhas tias sempre foram e são. Escondi o que estava sentindo, pois aprendi que ser forte era não demonstrar sentimento. Então não conversei com ninguém sobre, até mesmo porque não tinha com quem conversar sobre esses assuntos e pensei que todo aquele processo fazia parte da adolescência e do que era ser mulher.

O terceiro “cara branco” me fez mãe, me fez viver uma relação que iniciou como num conto de fadas, com romance e juras de amor eterno. Depois veio o controle, a obsessão, a violência psicológica e verbal, a posse, o ciúme desenfreado… O relacionamento mais abusivo que já vivi.

Conheci o quarto “cara branco” conheci num momento onde experienciava toda a liberdade de ser quem eu sou. Liberdade de pensamento, sexual e liberdade de existir. E no auge de toda essa vivência ele determinou o meu lugar na vida dele. Lugar de “amiga” e da mulher com quem ele viveu as melhores “aventuras” da vida. Era isso o que ele me dizia e eu me esforçava para acreditar que todo o racismo e sexismo que ele tinha dentro dele camuflado não determinavam nossa relação.

O quinto “cara branco” chegou num momento de mudanças internas, onde eu queria um relacionamento, mas não esses relacionamentos tradicionais, onde a sociedade define o que é certo e o que é errado e a gente se relaciona baseado nisso tudo. Eu queria a liberdade de existir individualmente estando num relacionamento. Nesse período da vida, eu passava por um turbilhão de sentimentos, de desconstruções e construções; me apropriava das militâncias enquanto mulher preta e ele chegou como um alívio em meio a todo caos interno.

Talvez esse tenha sido o pior de todos os relacionamentos até hoje, pois senti as consequências físicas e mentais da falta de responsabilidade afetiva, do racismo recreativo e estrutural; mais uma vez do sexismo sobre meu corpo preto e potencializei a tudo isso todos os anos de preterimento. Me culpei durante muito tempo por ter tantas ferramentas, vivências e não saber utilizá-las, quando necessário. Mas essa culpa é um fardo muito pesado para carregar sozinha.

Deixei a conta para a sociedade racista. Aprendi que solidão tem gênero e cor. Gostos pessoais e afetos são construções sociais e essas construções impactam diretamente na forma com que as mulheres negras se relacionam. Claudete Alves em “Virou Regra?”, escreve brilhantemente sobre o processo histórico da mulher negra, desde sua trajetória e ruptura da diáspora africana até a contemporaneidade, permeada pela solidão.

Aprendi também que é muito melhor caminhar ao lado de alguém que vai na mesma direção que a gente, entende e compartilha da mesma dor. Ano novo tá aí e quero desaprender a me relacionar desse modelo branco heteronormativo. Quero aprender a amar em plenitude, sem definições, só o amor pelo amor.

1 COMENTÁRIO

  1. Obrigada por dar voz a muitas de nós.
    Também me lembro de uma história assim na infância.
    Ansiosa para andar com quem siga na mesma direção 🤗
    Sigamos juntas.💙

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