Prólogo: Tudo que a maternidade fez comigo

A pregnant woman standing beside a crib in a cozy nursery room.

A maternidade me removeu todos os meus territórios, me fez perder as chaves da minha cidade e do meu mundo, perder o orgulho familiar, a mobilidade urbana e a estima feminista. Me colocou numa encruzilhada de uma noite sem lua, onde tudo e todos me diziam que instintivamente eu saberia que caminho escolher. 

A maternidade mudou meu humor, meu intelecto e meus hormônios. Comprimiu meus órgãos, me tirou o ar e me fez vomitar minha comida preferida. A maternidade fez cair meus cabelos e apertou minha bexiga, inaugurando uma nova relação com a dor. Inchou minhas pernas, encheu meu peito de incertezas e minha cabeça de monstros. 

A maternidade me tirou a vontade de ler teoria pós-estruturalista, zines, exposições de arte e cinema. A maternidade me fez perder a vontade de estudar e de ser alguém. Me fez imediatista e desconfiada de planos a longo prazo. Plantou uma árvore de angústia no meio da minha sala, que crescia na mesma medida que a minha barriga.

A maternidade me colocou em fila de espera para que me perfurassem e me examinassem o colesterol e os níveis de ferro no meu sangue. A maternidade atravessou minhas entranhas me fazendo gritar e pedir socorro. Escorregou por entre as minhas pernas banhada em sangue, vérnix e lágrimas. 

A maternidade me fez estranhar a mim mesma em surtos de melancolia: me fez ver na janela a possibilidade de um voo para outra vida. Onde eu namoraria um mundo de outras formas e onde meus desejos não precisariam de medida moral. Eu planaria no ar quente do RJ com as asas costuradas de alívio e meu corpo voltaria a ser inteiro. 

A maternidade mudou meu nome, minha individualidade, minha aparência. Ressecou meus lábios que desaprenderam a beijar, a cantar e a sorrir. A maternidade criou uma fronteira intransponível entre mim e o espelho do banheiro que quebrei, intencionalmente, pois já não me importavam sete anos de azar.

A maternidade comeu minhas paredes e gorfou na minha blusa preferida, aquela que era descolada o suficiente para esconder a flacidez da minha cintura. Deixou em meus seios um cheiro azedo e indigesto que afastou o homem que eu gostava de um dos meus mais sensíveis pontos de excitação. 

A maternidade me fez novamente uma mulher solteira. Eu só aceitei que a maternidade me sorrisse quando ela já tinha seus dois dentes incisivos inferiores e uma gargalhada que parecia tentar iluminar dentro de mim. Eu lembro do prazer que era resistir ao seu encanto e de sentir orgulho de ser um ser vivo que já não sentia nada. Foi aí que conheci o fim do mundo, tanto quanto possível ser sentido por um triste pedaço de carbono.

A maternidade me fez sentar num divã e falar sobre a minha infância, minha relação com dona Joelda e com meus traumas adolescentes. Escavou memórias que estavam guardadas por um amontoado de silêncios. Tirou as minhas roupas e me disse que talvez, se eu arrancasse minha epiderme, talvez lá dentro ainda houvesse um pedaço de desejo de vida. 

A maternidade inquietou meus pensamentos a ponto de ressuscitar a ativista que jazia perdida em alguma parte das minhas concepções políticas. A maternidade se tornou meu objeto de pesquisa e me salvou da morte. A maternidade me fez perceber uma comunidade de mulheres tão sem rumo quanto eu, e na qual pude ser abraçada pelos mesmos medos e inconstâncias, mas também pelas mesmas esperanças. 

A maternidade mudou meu voto e o roteiro dos meus fins de semana. Recusava se sentar onde não houvesse espaço para ela. Repelia aquelas amizades que não a reconheciam como parte indistinta da minha subjetividade. Nenhum relacionamento superficial sobreviveu com a sua forma crítica. Nenhum homem, nenhum autor, nenhum parente. 

A maternidade solidificou minha zona de defesa e refinou o meu discurso. Me tornou mais exigente sobre quem corria ao meu lado na guerra da vida cotidiana. A maternidade me pariu como professora e pesquisadora, que no auge dos meus 30 anos observou que sua epistemologia não contemplava suficientemente a intelectualidade de mulheres negras e indígenas. 

A maternidade me fez ver, nas artimanhas do racismo cotidiano, questões de gênero, raça e classe. Instalou em meu cérebro a semente de uma rebelião que eu não poderia fazer sozinha. E nesse movimento, a maternidade me apresentou ao meu quilombo, me aldeou, me acolheu, me libertou, me perguntou como gostaria de ser apresentada.

Nem ela me domina, tampouco eu a ela. Temos uma relação, que como qualquer outra relação humana, possui seus altos, baixos e subterrâneos. Uma relação guiada por um contrato móvel que se transforma à medida que eu e ela crescemos, adquirindo novos termos e jogando fora aquilo que já não nos cabe. 

Por Luana Fontel – @estudosdamaternidade

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