Quem cuida de quem cuida? A pergunta ecoa na sociedade que nos atravessa. Quem? Quase nunca ninguém. Ela retorna quando o cansaço rouba das mães o que há de mais precioso: a paciência de sustentar, em cuidado, o futuro.
Educar é uma das tarefas mais difíceis do maternar: impor limites, dizer não, conversar, ponderar, ensinar. E tudo se torna mais dispendioso quando a exaustão chega de mala para ficar. Não pede licença, não ajuda, não vai embora. Instala-se. Uma visita folgada que ainda exige atenção constante.
É um estalo de chicote constante que faz música aos ouvidos maternos, fora de ritmo, barulhos que irritam, melodias escondidas por trás da irritabilidade da exausta realidade.
Devoram pratos limpos e riem ao sujar tudo. Quem cuida?
Na tentativa de responder, buscamos redes de apoio, tantas vezes ausentes, distantes da aldeia necessária para criar um filho. Estamos todos ocupados tentando sobreviver ao fim do mundo. Essa é a verdade.
E a ideia de aldeia, aquela em que se espera uma sociedade inteira, fica cada vez mais distante, fria, desfocada, imagem de que mães importam, crianças idem.
A aldeia morre com o cacique, com as ocas de palha e madeira, como se fossem ideias atrasadas de civilização, engolidas por constante desmatamento, poluição e verticalização.
De novo, quem cuida?
A exaustão não nos permite olhar para essas perguntas. Está em todo lugar, onipresente como o Deus que tanto solicitamos ajuda.
Enquanto isso, na beira do fim do mundo, mães trabalham para adiá-lo. Insistem em fazer dele um lugar possível, bonito, afável, para alguém que só quer acordar brincando e dormir rindo. Arregaçam as mangas e seguem.
Mesmo exaustas, movem o mundo do fim ao recomeço, todos os dias, vencendo a si mesmas em batalhas infinitas. Carregam a exaustão sozinhas, poucas vezes na sorte de um bom companheiro para dividir com elas o peso.
Cenário ordinário que deveria ser lindo: maternar, ver a vida crescer e florescer bem diante dos nossos olhos. Poder com calma acolher e zelar.
E ainda há um fator discriminante: a elitização de quem deveria ou não ter filho. Discursos preconceituosos crescem, enquanto a terceirização do cuidado por quem se acha no direito de dizer o que bem entende também.
Mundo apático que só aumenta o volume da pergunta. Quem cuida de quem cuida do futuro do mundo todo?
Uma coisa lhes digo. Não é o capitalismo com seu apetite de lucro a qualquer custo.
E então eu lhes pergunto. O que faremos com esse absurdo?
Por Ana Paula Benini – @escritadeana





