Quando meu filho era pequeno, eu acreditava que estava procurando respostas para ele. Eu não sabia que estava procurando respostas para nós dois.
As pessoas percebiam coisas que eu não via. Diziam que ele era diferente. Falavam sobre dificuldades de interação, interesses intensos, sensibilidades. Eu escutava tudo com atenção e, ao mesmo tempo, com estranhamento. Muitas das características que descreviam pareciam comuns para mim. Tão comuns que eu não entendia por que chamavam tanta atenção.
Lembro-me de sair de consultas, reuniões escolares e avaliações carregando relatórios e dúvidas. Eu lia cada página com bastante cuidado. Marcava trechos com canetas coloridas. Fazia pesquisas. Conversava com profissionais, lia blogs. Queria compreender meu filho da melhor forma possível.
Mas havia algo curioso acontecendo. Enquanto eu estudava o autismo para ajudá-lo, os textos pareciam falar também sobre mim.
No começo, descartei a ideia. Afinal, eu já era adulta. Tinha me formado, construído uma família, ingressado no mestrado, chegado ao doutorado. Como poderia ter passado a vida inteira sem perceber algo tão importante?
A resposta veio aos poucos. Passei a revisitar minha infância. A menina que preferia observar em vez de participar.
A adolescente que decorava regras sociais sem compreender completamente seus significados. A jovem que chegava em casa exausta após situações aparentemente simples para outras pessoas.
A mulher que passou anos acreditando que precisava apenas se esforçar mais para ser como os demais.
As lembranças começaram a se reorganizar dentro de mim como peças de um quebra-cabeça antigo. Aquilo que eu chamava de timidez. Aquilo que eu chamava de sensibilidade. Aquilo que eu chamava de exagero. Tudo começou a ganhar novos nomes.
Quando recebi meu diagnóstico de autismo aos 35 anos, não senti apenas surpresa. Senti uma espécie de reencontro.
Não foi um momento cinematográfico. Não houve música de fundo, nem iluminação especial. Houve silêncio. Um silêncio cheio de memórias.
Pensei na criança que fui. Pensei em quantas vezes me senti inadequada sem entender o motivo. Pensei em quantas estratégias desenvolvi para parecer igual aos outros. Pensei no quanto eu havia me cobrado. Também pensei em meu filho.
Durante anos, olhei para ele com o desejo de ajudá-lo a encontrar seu lugar no mundo. De repente, percebi que aquela busca havia me conduzido ao meu próprio lugar.
A maternidade fez algo que nenhuma formação acadêmica, nenhum livro e nenhuma pesquisa tinham conseguido fazer. Ela me obrigou a olhar para mim.
Ser mãe de uma criança autista me levou a enfrentar escolas, consultas, burocracias e preconceitos. Mas também me levou a enfrentar minhas próprias histórias. Muitas vezes, ouvi que mães precisam ser fortes.
Hoje acredito que a força tem várias formas. Às vezes, força é lutar por direitos. Às vezes, é permanecer de pé depois de um dia difícil. Às vezes, é admitir que você também precisa de respostas.
Durante muito tempo, tentei ser a mãe que resolveria tudo para os filhos. A vida me ensinou outra coisa. Descobri que não preciso ser uma mãe perfeita. Preciso apenas ser uma mãe disponível para caminhar ao lado deles.
Meu filho continua crescendo e construindo sua própria história. Eu continuo construindo a minha.
Ainda existem desafios. Ainda existem olhares atravessados, incompreensões e barreiras. O diagnóstico não eliminou essas dificuldades. Mas trouxe algo precioso: linguagem.
Passei a compreender melhor meus limites, minhas necessidades e minhas formas de existir.
Pela primeira vez, muitas experiências deixaram de parecer defeitos e passaram a ser características. Muitas culpas perderam força. Muitas perguntas encontraram respostas.
Hoje, quando olho para trás, percebo que a maternidade não me transformou apenas porque tive filhos.
Ela me transformou porque me permitiu enxergar quem eu sempre fui.
Eu acreditava que estava conduzindo meu filho em uma jornada de descobertas.
Não percebia que caminhávamos juntos.
Enquanto eu procurava explicações para ele, encontrava fragmentos de mim espalhados pelo caminho.
E foi assim que aconteceu. Procurando meu filho, encontrei a mim mesma.
Autora: Érika Fabíola da Silva Maia
Revisão: Laura Bonruck





