Houve um momento da minha vida, duradouro até, em que absolutamente tudo que dizia respeito à maternidade e ao seu pacote de subtemas era o meu hiperfoco.
Foi nessa época que criei o “Clube do Piquenique”, um espaço onde mães e seus bebês podiam se encontrar para ter um momento de “respiro”, de “diversão” e de troca. Adivinha qual era o top trend nesse espaço interativo de mães recém-paridas? A roda girava e cada uma discorria sobre a fase do seu bebê; mais uma volta, surgia a experiência com o pediatra; uma curva e… a conversa era guiada para estratégias de desfralde ou métodos de introdução alimentar, a depender da fase de cada um.
Foi nessa época também que escrevi muito. Meus textos eram 100% sobre maternidade. Cheguei a ensaiar um @ exclusivo nas redes sociais.
Sempre que me apresentava, o título de “mãe” vinha primeiro, em caixa alta e negrito. Bem parecido com aquelas pessoas que amam tanto a profissão que passam a ser imediatamente associadas a ela, como se fosse sua única identidade.
Na “escrita materna”, meu tipo era realista com floreios. Poesia no caos.
Passei pelos três pós-partos. E a janela se abriu novamente para o mundo.
A verdade veio nua e crua: eu contribuí para que a sociedade continue achando que as mães devem ser guerreiras. A partir do arquétipo do herói — nesse caso, heroína — construí narrativas épicas. Verdadeiras sagas relatadas em detalhes. A clássica jornada do herói: onde a protagonista sai do seu mundo comum, enfrenta desafios no “mundo especial” (materno) e retorna transformada.
Não foi intencional. Foi pura inocência. É porque soa bonito quando alguém te chama de guerreira, concorda? Eu fui seduzida por esse lugar.
O fato é que hoje isso não me atrai. Não é sustentável para ninguém ser mãe — e apenas. Ou a mãe guerreira, insubstituível.
Veio uma consciência importantíssima: seja inteira, humana, de verdade. Quando te perguntarem por que você ama viver ou qual é o seu maior sonho, que você tenha uma lista enorme de motivos, os mais diversos possíveis.
Queridas filhas, não me interpretem mal. Um dia vocês podem se deparar com este texto. Até lá, também terão amadurecido, e tenho quase certeza de que entenderão o que a mãe de vocês disse aqui, nas entrelinhas. Vocês sabem que eu amo profundamente ser a mãe de vocês e que fiz escolhas baseadas nesse filtro: “por esse caminho, eu serei menos ou mais para minhas filhas?”.
Eu reativei outras partes de mim, agora numa versão mais contemporânea. Não volto atrás. Embora eu também sinta saudade do tempo em que cheirava a golfo de bebê. Meu processo de lapidação é para me tornar inspiradora, profunda e interessante. Uma mulher de várias camadas, com interesses plurais, mas sem pretensão alguma de ser perfeita, guerreira ou heroína. Esse update só foi possível porque a maternidade me atravessou. E eu prefiro assim.
PS: se um dia fundarem um clube materno, ajustem o formato. Promovam encontros para rir, cantar e tomar vinho (tirando as lactantes). Uma confraria para celebrar as mulheres reais e maravilhosas que são. Quero estar viva para brindar com vocês!
Por Nathália Simões – @nathaliasimoes
Revisão: Angélica Filha





