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Sou mãe, como outras tantas, minha história é como de muitas.

Mas antes de ser mãe, eu entrei na faculdade em 2014, Administração. Em 2015, me casei mesmo após muita gente dizer que era doida de fazer isso antes de terminar a faculdade, mas mesmo assim nos casamos e apesar da dificuldade, deu tudo certo.

Em 2016 eu engravidei, sem estar planejado, depois de uma escorregada e a ajuda de uso do antibiótico que cortou o efeito dos anticoncepcionais. Descobri a gravidez assim que entrei no meu novo emprego, aí além de me preocupar com a faculdade ainda em curso, tive q me preocupar com o que me chefe diria sobre isso. No começo tudo se passa na nossa cabeça certo?

A faculdade, adiantei matérias, e apesar do cansaço e dor nas pernas, costas, fui firme, já que meu bebê nasceria em dezembro ou janeiro, e aí daria para terminar 2016 e em 2017 como seria o último ano, seria difícil, mas com as matérias adiantadas, conseguiria ir, menos dias, mas iria, para terminar com a turma o ano. No trabalho me surpreendi, pois meu chefe e também toda a equipe com quem trabalho me apoiaram e me felicitaram.

A gravidez seguiu bem, descobrimos que se tratava de um lindo menino, o nosso querido Leonardo ou Léo, como chamávamos. Muito amado e aguardado apesar de não ser planejado.

Entretanto por diversas razões, físicas e emocionais também, desenvolvi algo muito perigoso, chamado pré-eclâmpsia, que se trata do aumento da pressão arterial, e dentre alguns sintomas o único que tive foi o inchaço. Infelizmente quando senti que havia algo errado, meu querido Léo já era um anjinho no céu. Estávamos de 28 semanas. Foi uma tristeza tão grande.

Eu acordei bem, mas o tampão saiu quando fui ao banheiro, e meu lindinho não estava mexendo como de costume naquele dia, fui para o trabalho e falei com minha médica que orientou ir a santa casa em minha cidade. Meu pai me levou, pois meu marido estava trabalhando. Fui atendida, a médica me examinou e constatou que realmente era o tampão, mas eu não estava com contrações, então ela foi escutar o coração do meu filho, e não foi possível ouvir, e assim ela me mandou para fazer uma ultrassom.

Sozinha recebi a notícia mais devastadora de minha vida, meu querido filho, a razão do meu viver desde que descobri a gravidez, já estava sem vida dentro de mim. Aos prantos liguei para meu marido vir ao hospital, pois iria internar. Ao chegar contei a ele que não havia nada que podia ser feito por nosso filho, que a internação era para que o parto fosse realizado. Nunca vi meu esposo chorar como aquele dia, nunca vi tamanha tristeza em seu rosto, em seus lindos olhos azuis, ou tão sem reação como quando estávamos aguardando os papéis da minha internação, e minha médica chegar ao hospital.

Minha mãe foi para hospital me acompanhar na internação, me acompanhou lá dentro, no consultório onde meu esposo não pode entrar, apesar de ter pedido a noção do tempo, já havia sido o horário do almoço, ali foi colocado um remédio para indução ao parto normal, já que minha pressão estava tão alta que segundo minha ginecologista eu poderia ter problemas com a anestesia, além de remédio na veia para baixar minha pressão, que se mostrou indiferente já que minha pressão seguiu alta. Implorei por uma cesárea, mas cedi a voz de minha mãe e meu marido que entrava sempre que as enfermeiras deixavam, pois fui para um quarto coletivo, como não havia um apartamento livre para que eu ficasse.

As dores começaram a aparecer primeiro fracas, e depois aumentando. Ao fim da tarde, minha médica retornou, avaliou minha dilatação e colocou novamente o remédio de indução, e foi embora pois ainda demoraria a nascer. Minha mãe foi para casa, tomar banho e trocar para passar a noite comigo no hospital. Nesta hora a dores foram aumentando, e meu esposo pode entrar um pouco para me ver. A presença dele me confortava, mas as dores só pioravam, e como havia outra moça na cama ao lado ele não ficou muito para não atrapalhar a privacidade dela, que também havia perdido bebê, mas estava de 8 semanas apenas e precisava fazer a curetagem.

Depois que meu marido saiu, e passado o tempo que poderia me levantar, pois o remédio intravaginal já devia ter dissolvido, perguntei a uma enfermeira se poderia ir ao banheiro, pois estava com vontade de fazer xixi a muito tempo, e também as contrações estavam fortes e mexiam com meu intestino. Chegando ao banheiro, por ter levantado as contrações pioraram, acabei fazendo cocô, e comecei a passar mal com calor e as dores, a colega do quarto me perguntou se eu estava bem, eu disse que não e pedi para chamar a enfermeira. Ela veio e me deu uma dura por ter ido ao banheiro sozinha, mesmo com dor eu rebati porque ninguém veio me levar ao banheiro, disse a ela que precisava de ajuda para me limpar, ela disse q iria buscar uma toalha para molharmos e me limpar. Quando ela saiu, tentei me levantar e senti que o bebê estava descendo, e falei para a colega de quarto, que foi atrás da enfermeira, avisá-la. Voltando disse a ela q estava sentindo o bebê descer, que as dores estavam muito fortes, ela riu e disse que era cedo ainda que iria demorar, retruquei dizendo que quem estava sentindo era eu, como ela queria saber mais. Ela me mandou deitar na cama, nisso começo a sair sangue, e ela foi fazer o exame de toque, e quando levantou minha vestimenta se assustou e disse que eu tinha razão que o bebê estava mesmo descendo, pois o pezinho estava para fora.

Ela foi chamar as outras enfermeiras, aproveitei e dei meu celular e pedi para a colega de quarto ligar para minha médica, ela saiu do quarto e chegaram três enfermeiras que me arrumaram na cama, e me pediram para fazer força conforme vinha a contração, e aos poucos o corpinho do meu bebê foi saindo, minha médica chegou quando faltava somente a cabecinha. Eu estava aos prantos e a enfermeira querendo que eu fizesse força para a cabeça sair, disse para minha médica que era muito difícil e que precisava de um tempo para respirar, já que meu bebê não estava vivo mesmo, não tinha motivo para ter pressa, pelo menos eu não via motivo para pressa, minha médica se posicionou enquanto eu respirava e chorava, uma enfermeira segurou minha mão e disse que eu era forte, que eu iria conseguir. Fiz uma última força e a cabecinha saiu, em seguida saiu a placenta, e as dores das contrações se foram, mas eu me sentia vazia, destruída. Me perguntaram se eu queria ver o bebê, eu precisava ver o rostinho daquele serzinho que me acompanhou por 7 meses, aquele que me alegrou e me motivou por tantos dias que o restante da vida queria me afundar.

Era lindo, meu Léo, era maravilhoso, perfeito, estava abaixo do peso para idade gestacional, mas eu amava aquele menino, e vê-lo daquela forma foi doloroso, mas se eu não o tivesse visto, ficaria imaginando e com certeza isso me consumiria, deveria ter pego em meu colo, afinal era meu filho, meu anjinho, que está no céu, pois assim acredito. Aquela noite o cansaço me venceu, dormia e acordava aos prantos, chorando baixinho para não preocupar minha mãe e não acordar a colega de quarto. Minha pressão não abaixou logo, por isso fiquei ainda 2 dias no hospital, meu marido conseguiu entrar na manhã seguinte quando fui trocada de quarto, e  o pior da longa estadia era ouvir os bebês chorando e as outras grávidas que estavam prestes a dar a luz.

Saímos do hospital na sexta feira, em casa as coisas também não foram fáceis, mas ao menos tinha minha companheira inseparável Ohanna, minha rottweiler que na época ainda não tinha um ano, ela sempre foi um grude comigo, no dia que fui para o hospital ela chorava sentida, quando voltei do hospital ela estava ainda mais grudenta, na segunda quando meu marido foi trabalhar e fiquei sozinha a primeira vez, chorei por ficar sozinha, por não ter meu bebezinho, ao sair meu marido deixou a porta aberta, a Ohanna entrou, e tentando me confortar, passando a patinha na minha cabeça. Minha mãe chegou em casa, para que eu não ficasse sozinha, e com a Ohanna com seus quase 20kg querendo subir em mim para me consolar, apesar de fofo, minha mãe estava preocupada com a minha recuperação e quis colocar ela para fora, com a porta fechada ela chorava sem parar, e não parou enquanto não a colocamos para dentro ela não sossegou.

Após os 40 dias em casa, quase louca, por não poder fazer muita coisa, comecei a fazer academia todos os dias às 7h da manhã, saía com meu marido para não ter desculpa de não ir. Eu e meu marido fizemos uma viagem no fim do ano, fomos para Santa Catarina, na casa da vó dele, no interior, depois fomos ao litoral, para chegar lá fomos por uma famosa rodovia, a serra do rio do rastro, assim fomos às praias, ao Beto Carrero, nos divertimos. Mas aos poucos a dor foi passando, alguns dias doía mais que outros. Passado os quatro meses voltei ao trabalho, foi bem difícil voltar e ver tudo aquilo que eu fazia e tudo como eu havia deixado. Mas meus companheiros eram muito bons comigo. No Carnaval viajamos novamente, agora estávamos no Guarujá, com minhas irmãs e uma tia minha que foi madrinha do nosso casamento. As viagens fizeram diferença, mesmo curtas, mesmo sem muito luxo, eram distração para o coração ferido.

Sete meses depois engravidei novamente, antes de descobrirmos, a filha de uma amiga que foi em casa, brincava com meu marido como eu nunca tinha visto, era emocionante ver a cena, só quem conhece meu marido sabe que ele não é o mais brincalhão, mas a Maluzinha parecia nem ligar, ela já sabia que vinha uma amiguinha, e estava preparando o coraçãozinho daquele papaizinho. Além da Malu, outra já desconfiava, minha querida Ohanna voltou a me perseguir, e passou a se deitar próximo de mim dentro de casa sempre que achava possível.

Pensa que foi tudo um mar de rosas quando descobrimos? Não. O medo nos acompanhava, apesar de querer muito um bebezinho para alegrar e mudar nossa rotina, o medo era muito mais muito maior. Aquele positivo era um misto de alegria e medo, os meses que se seguiram foram longos, cheios de exames, preocupações e fazendo o meu máximo para ter uma gestação tranquila, apesar estar no último semestre da faculdade. Evitando muitas coisas, e rezando a cada dia para que esta criança fosse saudável e tudo corresse como esperado na gravidez.

Então minha benção nasceu, em 07/02/2018, minha pequena Tábitha, com 46cm, 2,800kg, às 21h50, após romper a bolsa às 15h00, antes da data prevista 19/02 que agendamos a cesárea. Eu em casa sozinha, em Itatiba, uma cidade do interior de São Paulo, mas meu parto seria na capital, iria no dia 08/02 para São Paulo e ficaria lá, acaso a bolsa rompesse, mas minha pequena já quis me ensinar que tudo tem a hora certa, e não é a minha hora rsrsrs.  Assim que a bolsa rompeu tentei falar com meu marido e não conseguia, ele estava em reunião, avisei a madrinha da Tábitha, e pedi para ajudar a avisar o pai, e assim fui para o chuveiro e me arrumar, já que a mala estava pronta para ir no dia seguinte para São Paulo.

Todos me perguntam se fiquei nervosa, mas por incrível que possa parecer, não senti dor, foi apenas líquido descendo, e o parto estava começando no momento dela, não no meu, isso me fez rir, e aliviou toda tensão. A madrinha conseguiu falar com o meu marido e ele veio o mais rápido possível, chegou e perguntou o que eu estava sentindo e se conseguiríamos ir até São Paulo, arrumou as coisas dele, e saímos, pegamos a madrinha na casa dela e partimos, para uma Bandeirantes sem trânsito, uma marginal Tietê sem trânsito, porém um pouco parado no minhocão. Chegamos a Pro Matre Paulista às 17h15, onde fui atendida, constatada a ruptura da bolsa e 3cm de dilatação. A maternidade estava lotada e não havia quartos nem salas de partos disponíveis na hora que cheguei, aí tivemos de esperar, enquanto isso tomei o antibiótico na veia. Às 21h30 entrei na sala, onde fui preparada e deu início ao parto.

Minha filha, saudável, linda, que veio me mostrar o que é o amor verdadeiro e puro. No dia 01/03/2018 foi minha formatura e adivinha quem foi comigo? Minha bebezinha com menos de 30 dias foi comigo para fazer a colação de grau.

E a minha Ohanna a ama tanto quanto me ama, e fica sempre de olho quando a pegam no colo e saem andando. Se tornou uma mega protetora, mas dá sempre espaço para a bebê, pois sabe quem manda. Olha as duas:

Sei que tenho muito a agradecer tanto a minha médica que me acompanhou no pré-natal da Tatha, a médica que realizava meus exames de ultrassom, pois me deram o apoio e atenção excepcionais, ao meu marido que mais do que nunca mostrou o que é a parceria.

Hoje não sei mais viver sem ela, é a minha razão de viver, descobri a maior alegria da minha vida, não é fácil, não é mesmo, vê-la chorando sem saber o porquê, acordar várias vezes de madrugada, trocar tantas fraldas no começo, o seio que vaza leite, suja suas roupas sem nem mesmo você ver, as dorzinhas chatas, as vacinas (ah as vacinas), mas nada, nada é tão difícil quanto se preparar psicologicamente para isso e isso não acontecer, eu sinceramente prefiro a labuta e tribulações da vida de mãe, sem muita rotina e ao mesmo tempo cheia de rotina, inusitada e difícil, do que perder a honra de ter nos braços o maior milagre da vida. Creio que a experiência de perder o meu querido Léo, foi que fez valorizar assim esses momentos com a minha doce Tatha. Após essa vivência, oro e peço pela saúde das mulheres grávidas, de seus bebês, para que ninguém tenha de passar pelo mesmo que eu, mas se tiver de passar que passe por tudo com muita força, que em algum momento haverá de ser recompensado. Essa é a minha boneca quando completou 2 meses, eu amo demais essa pequena.

 

Autora

 

 

Meu nome é Marianne, tenho 26 anos, completos em 23 de fevereiro, o mesmo mês do meu maior presentinho, sou mãe de um anjo e uma princesa.

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