“Entre o peso e a liberdade”

Caro diário,

Eu amo ser mãe, mas, às vezes, dói.

Sinto-me frágil, perdida na idealização de que preciso estar sempre por inteira.

Parece que não posso mostrar meus fantasmas, minhas falhas, meus cansaços.

É como se a sociedade moldasse, ou podasse, o ser mãe e o ser mulher.

“Você não pode isso porque é mãe.”

“Isso é feio para uma mãe.”

Mas, afinal, o que uma mãe-mulher pode ou não pode ser?

Silenciam-nos a todo custo.

Esperam que sejamos sempre completas, sempre fortes, sempre luminosas.

Mas existem mesmo mulheres que conseguem estar por inteiro o tempo todo?

Ou isso é apenas mais uma ilusão criada sobre nós?

Tem dias em que tudo é leve, e há outros em que tudo pesa.

Quero ser eu, mesmo que isso me tire a paz.

Quero ser eu,

Sem máscaras, sem rótulos.

Quero respirar, mesmo que os ombros pesem ao amanhecer.

Quero correr, sem pudor.

Quero dançar o bolero, mesmo que seja efêmero.

Quero falar mesmo que a minha voz se cale,

Quero escrever aos quatro cantos do mundo.

“No silêncio que um dia me fez pequena, hoje nasce a mulher que se recusa a se esconder.”

Quero um trago de cigarro, mesmo que os olhos atravessem.

Quero um gole da vida, mesmo que a ilusão caminhe lado a lado com a realidade.

Quero tudo o que apontem para a mulher não fazer ou ser.

Quero ser eu, mesmo que esprema a alma,

Mesmo que os calos doam,

Mesmo que arranquem minhas cordas vocais.

Quero ser um antídoto para a dor.

Quero ser…

Um ato de coragem, resistência, força e persistência.

Uma mulher que não se desculpa por ocupar espaço,

que não se curva às expectativas,

que transforma feridas em asas e cicatrizes em histórias.

Quero ser eu, inteira, mesmo que custe caro.

Quero ser minha própria revolução,

a voz que ecoa mesmo quando tentam calá-la.

Quero ser vida, desejo e liberdade em estado puro.

Quero que pulsem cá dentro as mais belas poesias de Clarice Lispector, Virginia Woolf e Simone de Beauvoir.

Quero ser um pássaro canário

Leve, mesmo com o vento cortando o peito.

Livre, mesmo que o mundo tente me prender.

Quero acordar com o sol,

voar entre nuvens e árvores,

cantar minhas verdades sem medo de eco.

Quero ser passarinho que atravessa tempestades,

que aprende com cada queda e encontra asas na dor.

Quero pousar, descansar e de novo levantar voo,

porque meu céu não tem limites.

Quero ser passarinho…

Um sopro de vida, um grito de liberdade,

uma alma que se recusa a se prender.

Por Canário – @Taylacanario

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