Na universidade, aprendi muito sobre desenvolvimento humano. Aprendi a aplicar testes, interpretar resultados e formular hipóteses diagnósticas. Tudo parecia bastante estruturado.
Mas nada daquilo foi suficiente quando precisei compreender meu próprio filho.
Desde pequeno, ele demonstrava uma curiosidade silenciosa e profunda. Seus desenhos tinham detalhes incomuns e uma expressividade marcante. Seu senso de humor era rápido, suas observações surpreendentes. Muitas vezes parecia pensar mais rápido do que conseguia falar.
Ao mesmo tempo, surgiam desafios que me inquietavam: distração constante, desorganização, dificuldades para lidar com frustrações e uma teimosia intensa em alguns momentos. Havia também particularidades que pareciam não se encaixar em nenhuma explicação simples: seletividade alimentar extrema, reações sensoriais fortes a certos estímulos e emoções que, às vezes, pareciam grandes demais para um corpo tão pequeno.
Quando ele tinha nove anos, realizamos a primeira avaliação neuropsicológica. Como psicóloga, eu conhecia bem aquele processo. Parte de mim confiava naquele método; outra parte — a parte de mãe — sentia que algo ainda não estava sendo totalmente visto.
O resultado apontava para um possível Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), do tipo desatento. Era uma explicação possível, mas não parecia completa.
Nos anos seguintes, essa sensação me acompanhou. E, junto com ela, vieram julgamentos. Algumas pessoas insinuavam que, por eu ser psicóloga, eu estaria “protegendo demais” meu filho. Outras sugeriam que suas dificuldades eram apenas “falta de limite” ou “manha”. Diante de comportamentos que não eram imediatamente compreendidos, a explicação mais fácil parecia ser responsabilizar a mãe.
Esses comentários revelavam algo maior: ainda sabemos pouco sobre as complexidades do desenvolvimento infantil. Aquilo que não compreendemos tende a ser simplificado — e muitas vezes essa simplificação recai sobre a mãe que busca ajuda.
Foi então que percebi algo que a universidade não havia me ensinado: para compreender meu filho, eu teria que voltar a estudar.
Passei a buscar literatura, aprofundando-me em temas como criatividade, altas habilidades e processamento sensorial. Foi um processo de estudo atravessado por algo que nenhum manual descreve — o olhar atento e preocupado de uma mãe tentando entender o próprio filho.
Quando ele tinha onze anos, decidimos realizar uma nova avaliação, desta vez com um olhar mais direcionado. Aos poucos, o quadro começou a fazer sentido.
Não era apenas TDAH. Também não era apenas talento artístico.
Tratava-se de um caso de dupla excepcionalidade: altas habilidades artísticas associadas ao TDAH.
Aquilo que antes parecia apenas desorganização passou a ser compreendido também como um pensamento muito rápido. A seletividade alimentar ganhou explicação dentro de um perfil de processamento sensorial. As dificuldades emocionais deixaram de ser vistas como simples teimosia e passaram a ser compreendidas como parte de um funcionamento neurológico mais complexo.
Essa nova compreensão mudou caminhos terapêuticos, orientações para a escola e estratégias dentro de casa. Trouxe possibilidades de intervenção mais adequadas. Trouxe também o alívio de uma mãe que buscava respostas e, muitas vezes, não encontrava um espaço em que sua percepção fosse validada.
Essa história também acontece em um tempo particular. Nunca se falou tanto sobre saúde mental e neurodesenvolvimento. Ao mesmo tempo, nunca circularam tantas interpretações simplificadas, diagnósticos improvisados e conteúdos imprecisos. Em meio a esse cenário, muitas famílias acabam ainda mais confusas sobre como buscar ajuda adequada.
Há também um aspecto social que atravessa silenciosamente muitas dessas histórias: ainda são, em grande parte, as mães que procuram avaliações, pesquisam especialistas e buscam compreender as necessidades dos filhos. Muitas vezes fazem isso sozinhas, enfrentando ceticismo ou preconceitos alimentados por ideias simplificadas como “no meu tempo não era assim” ou “isso é falta de disciplina”.
Se para mim — psicóloga, com acesso à informação — esse percurso já foi longo e emocionalmente desafiador, o que acontece com as mães que não têm essas mesmas condições?
Quantas famílias deixam de buscar avaliações aprofundadas por causa do custo? Quantas crianças recebem rótulos apressados ou intervenções que não dialogam com suas necessidades reais?
Muitas vezes, o caminho até um diagnóstico adequado depende de três recursos que nem todas as famílias possuem: informação, acesso e tempo.
Essa experiência me ensinou que o cuidado em saúde mental e neurodesenvolvimento exige escuta qualificada, formação profissional sólida e políticas públicas que ampliem o acesso aos serviços especializados.
Mas também me ensinou algo profundamente humano: a maternidade nos coloca em um lugar de aprendizado constante. Independentemente da formação profissional, ser mãe é, muitas vezes, caminhar entre dúvidas, responsabilidades e a busca por compreender quem são, de fato, nossos filhos.
No Dia das Mães, essa história é também um convite à reflexão. Precisamos ampliar o acesso à informação qualificada, fortalecer a formação de profissionais e criar redes de apoio às famílias. Especialmente às mães, que ainda hoje seguem sendo, em grande parte, as principais responsáveis por buscar cuidado e caminhos para seus filhos.
Porque compreender uma criança não deveria ser um privilégio de quem tem mais recursos. Deveria ser um direito de todas as famílias.
Por PAULA APPROBATO DE OLIVEIRA – @paulaapprobato.psico
Revisão: Angélica Filha





