Entre andares: o tempo não pára no sexto

Tô, há três meses, colecionando ziquizira do pós-parto, além de uma ou outra treta ortopédica inerente à “segurência” de bebê crescente no colo. Hoje rumei pra resolver uma delas.

Nessas coincidências boas, o consultório da minha dermatologista fica no mesmo prédio do da minha obstetra.

Um lugar de caminho familiar, portanto, faz anos. Pro pré-natal do Caetano, entrei no prédio pelo menos uma vez ao mês nos últimos nove.

Ainda no hall, um casal saía do elevador social, um tanto afoitos, falando com o funcionário do prédio: “- moço, esse elevador não tá funcionando direito. A gente tá tentando ir para o 6º andar e ele não sobe…”.

Notei, então, que o elevador fechava a porta e abria de novo, repetidas vezes, sem sair finalmente de lugar algum.

Respirei fundo (porque sou das que se arrebatam com a emoção de qualquer tolice cotidiana) e olhei pra barriga saliente dela.

O casal “grávido” estava indo pro consultório da minha obstetra, que fica mesmo lá, no sexto andar.

Aquele elevador já tinha dado o mesmíssimo defeito comigo, também grávida, dentro. E eu, tão afoita quanto a moça, avisei ao funcionário do prédio sobre o mau funcionamento antes de subir pelo outro elevador disponível.

Parei ali, diante de um diálogo absolutamente banal, refletindo sobre o ciclo e o tempo das coisas.

Dessa vez, ainda que a cena se repetisse diante de mim, eu tava indo pra outro médico.

Era uma ligeireza diferente… tava sozinha, sem ninguém ao meu lado ou crescendo dentro de mim.

Tava mais leve e caminhando mais ligeira, apesar de não ter pressa alguma. Andando cuidadosa, bem verdade, e com paninho no sutiã pra segurar leite vazado de bebê que estava em casa.

Mas ali de novo, simbolicamente, 8 casas à frente, indo pro 14º andar.

Sorri sozinha, pensando em como, mesmo a vida se repete, de uma forma ou de outra. E como o tempo não para nem quando consigo enxergar beleza num cotidiano que é pungente.

Subimos juntas no elevador de serviço; os vi descer no 6º andar e entrar pela porta do consultório da minha obstetra (agora também deles) e segui pra minha consulta no 14º.

Entrei na sala cinzenta, devorada pelo cimento queimado nas paredes, e — novamente arrebatada pelos sinais que o universo me traz — ouvi “Repetition” do Information Society tocando no alto-falante do consultório…

Sorri por dentro, entendi o recado e me sentei pra escrever isso.

Por Alexandra Bulhões – @alexandrabulhoes

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal