Enquanto meu filho não chega

Dez horas. Finalmente consigo parar um pouco na frente da televisão para descansar. Minhas pernas já estão pedindo arrego há tempos. Mas tinha tanta coisa para ajeitar! Não importa que amanhã é sábado: é até pior. Tem ainda mais coisa para fazer. Tá passando um programa tão sem graça na televisão! A única hora para assistir alguma coisa e não tem nada que presta. Melhor dar uma espiadinha no celular.

Afinal, meu filho saiu no final da tarde com aquele bando de amigos. Disse que era só um pulinho na casa do fulano. Como é o nome dele mesmo? Aquele colega da escola que mora naquele bairro atravessando a passarela… Enfim, nenhuma mensagem. Devem estar jogando bola por aí. Vida de mãe não é fácil. Só canseira e preocupação.

Onze horas já. Ele ainda não chegou.

Deve estar chegando. Tem que estar chegando. Amanhã tem que acordar cedo. Não importa que é sábado. Ele combinou de ajudar o pai no serviço, e combinado é combinado. Se chegar muito tarde, depois dá aquele trabalhão para acordar.

Ela avisou antes de ele sair que era para estar em casa cedo. Mas ele insistiu, quis sair com os amigos, disse que era rápido, só um pulinho na casa do colega. Só que o colega mora longe, atravessando a passarela. Ele foi de bicicleta com os amigos, e o trânsito é mais uma preocupação. E, para ajudar, nenhuma mensagem.

Meia-noite. Cadê esse menino?

Ele tinha prometido que era rapidinho, só ia na casa do colega e pronto. Tinha saído no finzinho da tarde e falado que voltava às dez horas. Ela sabia que ele atrasaria — ele sempre atrasava. Mas não tanto assim! Tinha combinado de ajudar o pai no serviço, ia acordar cedo no dia seguinte, então não ia abusar. Não daquele jeito. E sem mandar nenhuma mensagem!

O que aquele menino estava aprontando? Não devia estar jogando bola a essa hora. Será que estava atrás de alguma menina? Ela sabe que ele não gosta que ela ligue quando está com os amigos, mas assim não tem condições. Ele não manda nenhuma mensagem.

Uma da madrugada.

E nada desse menino. Ele não chegou, não respondeu às mensagens, não atendeu o celular. Eu estou ficando louquinha aqui. Se ele fosse criança, ia levar uma coça quando chegasse em casa, ah, se ia! Mas já era quase um homem feito. Sei que precisa de espaço, de liberdade, de todas essas coisas. Mas eu preciso saber que ele está bem.

Ai, como coração de mãe aguenta?

Ele disse que era rapidinho, um pulinho na casa do colega que mora lá depois da passarela. Foi de bicicleta com aquele bando de amigos. Tem uns meninos bons lá, que eu até gosto, mas metade desse bando eu não vou com a cara. Não conheço mãe nem pai, não sei de onde vêm, não sei o que fazem, não confio. Vivo avisando meu filho para ter cuidado com as amizades. Ele fala que eu me preocupo demais, que sou cheia de minhoca na cabeça. Não é minhoca na cabeça, não. É anos de vida mesmo. Experiência. Sei muito bem o que é andar em má companhia — ainda mais um menino como ele. Quando eu falo isso, ele sempre pergunta: “Como eu, mãe?”. Tenho vontade de dar uns petelecos nele. Como se ele não soubesse. Um menino pobre e preto da periferia. Andando por aí em má companhia essa hora da noite. Parece que está procurando encrenca.

Duas da madrugada.

Meu marido já tá dormindo e até roncando. Mas eu não vou conseguir dormir enquanto meu filho não chega. Não tem como. Minha cabeça já tá pensando mil besteiras. Ele não responde às mensagens, não atende o celular. Eu não sei onde ele está. Estou tão desesperada que nem liguei para o horário e mandei mensagem para a vizinha, mãe do amigo dele que também foi junto à casa do tal colega. Se ela quiser me xingar, que xingue. Eu preciso saber do meu filho. Só que ela não xingou. Também não consegue dormir, coitada, preocupada com o filho que ainda não chegou. Também não sabe dele. Não responde mensagens, não atende o celular.

O que será que esses meninos estão aprontando?

Será que foram para alguma balada? Com que dinheiro? Será que foram para a casa desse amigo fazer alguma coisa errada, beber, fumar, essas coisas? Por isso não estão respondendo? O que ele está fazendo? Cadê meu filho?

Já são três da manhã.

E nada do meu filho. Nenhuma mensagem, nenhuma resposta. Só silêncio e vazio. Eu já chorei, já rezei, já bebi chá de camomila. Mas não consigo me acalmar, não consigo dormir, não consigo parar de pensar no meu filho que não chega. Era para ele já estar em casa, dormindo na cama dele, seguro e feliz. Ele ia ajudar o pai dele no serviço de manhã cedinho. Ele tinha prometido. Ele sempre cumpre as promessas. Ele é um bom menino. Mas nasceu na parte errada da cidade, e com a cor errada. E eu não consigo deixar de ter medo por ele. Pelo que podem fazer com ele.

Quatro da manhã.

Eu ainda não dormi. Meu filho ainda não chegou. Ainda seguro o celular, cansada de mandar mensagens, de esperar mensagens, de ligar sem parar e não receber resposta. Minhas mãos estão tremendo. Meus olhos já não enxergam direito, de cansaço, de lágrimas.

As luzes da polícia iluminam a parede da sala e eu fico ouvindo a sirene se distanciar, numa pressa urgente.

Meu coração se aperta numa dor que só uma mãe pode conhecer. Daqui a uma hora eu teria que preparar o café e me aprontar para pegar o ônibus e sair para o trabalho. Mas eu não vou sair daqui. Eu não vou fazer nada. Não enquanto meu filho não chega.

Escrito por: Chris Bueno – @chriztagramm

Revisão: Juliana de Castro Grassmann

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal