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Não sei descrever com palavras bonitas toda a poesia do ato de amamentar, mas faço este texto meio burocrático por achar que tenho algo a dizer que contribua com as reflexões proporcionadas pela SMAM, além disso, hoje minha filha completa seis meses do lado de fora da barriga. Ela que já chegou mostrando que não teríamos mais controle sobre nossas vidas como antes, sabotando nossos planos e enchendo nossa vida de possibilidades.

Durante a gravidez eu já dizia que tinha muito mais medo do “depois” do que do parto. Meu parto não saiu como planejado o que me fez ficar ainda mais apreensiva com uma questão importante do pós-parto: a amamentação. Assim como tinha certeza que desejava ter o parto mais respeitoso possível, também tinha total certeza que conseguiria amamentá-la sem dificuldades. Com a cesárea nos últimos momentos, depois do resultado ruim de um exame, eu me inundei de incertezas: “a cesárea vai atrapalhar a apojadura?”, “será que a recuperação da cirurgia será dolorosa?”, “vou conseguir amamentar na primeira hora de Cecília neste mundo?”.

Cecília nasceu procurando o peito, mas tivemos que adiar este momento por conta da posição incômoda da mesa de cirurgia. Nossa golden hour não existiu (foi no máximo uma golden half hour), mas enfim chegou o momento!

Já no quarto, veio toda sedenta para mim que estava numa posição pouco favorável (toda costurada), mas feliz por poder enfim abraçar e alimentar minha filha. Depois de três ou quatro dias o leite desceu e mesmo com toda a informação que eu tinha foi muito difícil. Peito duro, todo empedrado, cheio de leite, eu sem saber fazer massagem direito, sem saber ordenhar, com o bico do peito começando a rachar.

Amamentei chorando algumas vezes, num tormento que durou quase uma semana. Depois disso, a quantidade de leite foi diminuindo, se adequando às necessidades da minha filha, aprendi a fazer direito a massagem e a ordenhar o que por acaso “sobrasse”.

Bem, por que estou contando isso? Para dividir a experiência, mas também para reconhecer meus privilégios, que deveriam ser direito de toda mulher que deseja amamentar, o que é um ótimo exercício de empatia (tentem em casa). Durante todo esse processo tive quatro coisas que, no meu caso, foram fundamentais: apoio incondicional do meu companheiro, acesso à informação de qualidade, tempo para tentar e vontade de amamentar. Vamos lá: vontade de amamentar muitas mulheres têm, mas pela falta dos demais pontos citados acabam não conseguindo, por isso vou focar nos outros pontos. Obviamente que existem as mulheres que não têm vontade e tudo bem.

O apoio do meu companheiro foi crucial, pois assim tive todo o tempo que precisava para me dedicar às massagens, para me conectar com a minha filha, para me recuperar da cirurgia. Além de muito carinho, muita atenção, muito oferecimento de água e muito suporte mesmo. Li muito (sempre buscando informação de qualidade) por isso já sabia, ao menos teoricamente, as dificuldades que enfrentaria pelo caminho.

Primeiro não deixei que minassem minha confiança, pois sabia: que meu leite não era fraco, que ele ainda ia descer, que Cecília perderia um pouco de peso nos primeiros dias de vida. Depois fui tentar entender um pouco da dinâmica da amamentação (sobre a pega correta, os ductos mamários, funcionamento da apojadura), aqui agradeço especialmente à minha doula e à enfermeira contratada para o parto domiciliar frustrado (duas mulheres que me ajudaram muito neste processo). Tempo, gente, foi essencial também.

A mulher pode ter a vontade que for, mas se ela não tiver tempo para se dedicar neste começo será muito mais difícil amamentar. Aqui a minha licença-maternidade do funcionalismo público (de seis meses) com meu companheiro em casa por mais de um mês fez total diferença. Quase todo dia me pego pensando nas mulheres autônomas ou nas que estão na informalidade e que precisam retornar quase que imediatamente ao trabalho e no quanto deve ser difícil para elas enfrentar todos estes obstáculos. Enfim, textão mesmo (mas muito longe de esgotar o assunto) para dizer que não há nada mais injusto do que julgar uma mãe que não conseguiu amamentar.

Pode ter faltado rede de apoio, tempo ou informação de qualidade (ou ainda tudo isso junto), pois o que não faltam são palpites que minam nossa confiança em nutrir: “esse bebê não larga o peito porque seu leite não sustenta”, “ele não dorme a noite toda porque seu leite não sustenta”, “ele chora porque seu leite não sustenta” (como se bebês nunca chorassem por outros motivos).

Faltam políticas públicas e incentivos de toda ordem, mas (pra variar) culpam unicamente a mulher pelo fracasso na amamentação. Ou seja, a amamentação exclusiva por seis meses (o que considero uma vitória) é fruto de todo um contexto favorável aliado à minha vontade de amamentar (e continuando agora com a introdução alimentar).

Não sei qual seria minha história com a amamentação se alguns desses fatores tão importantes para mim não funcionassem como funcionaram. Seguimos firmes por aqui, com minha filha com 70 cm, 9,300 kg, um monte de dobrinhas gostosas, prontas para a nova fase de palpites: “ela não é grande demais para ainda mamar em você?”, “ela não come porque mama demais, experimenta deixar com fome pra ver”, “o seu leite virou água, por que continua oferecendo esse peito murcho pra menina?”…

Autora

Jaqueline Barbosa. Mãe de primeira viagem da Cecília, doutoranda, professora. Buscando educar a Cecília para que ela saiba que pode ser o que quiser e para juntas lutarmos contra as injustiças deste mundo…

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