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E as experiências coletivas geralmente precisam apagar dores alheias para serem viáveis

Outro dia, outro peso diferente. Outro corte, outro sangramento. No dia seguinte à 2 de Abril sai aquele trailer de Coringa. A ideia é que seja um filme para adultos. A maturidade não apaga vivências e dores eternas. Apenas amenizam. E certas coisas infelizmente fazem sangrar.

A ideia é que seja um filme adulto, um filme denúncia, um filme subversivo em cima do mito criado em torno do personagem Coringa. Tantas abordagens diferentes. O filme vai chocar. Conscientizar pelo medo? Ou criar mais medos e mais mitos?

É só um trailer.

Crianças e adultos neuroatípicos sobrevivem às margens da sociedade. Foucault fala disso em a História da Loucura. Comentei algo sobre bullying e crianças neuroatípicas em meu texto sobre Boku no Hero. Para quem quiser, existem várias fontes linkadas nesse texto:Não me obrigue a perdoar o BakugoSobre Boku no Hero e deficiência.

Mas eu posso acrescentar mais algumas para quem tiver interesse. Como dados do IPEAesta notícia aqui com alguns dados, uma matéria sobre discriminação em ambientes laboraisesta aqui sobre ser mulher com deficiência. E estes dados de uma associação que luta pelos direitos das pessoas dentro do espectro.

É apenas mais um filme de quadrinhos. É ficção?

Não, não é. Esse é o problema. Não é ficção. É realismo fantástico. Porque pessoas com deficiência não tendem a explodir como Coringa. A maioria, termina tendo mortes horríveis, em instituições, como o livro Holocausto Brasileiro mostra em termos de Brasil o que acontecem com pessoas com transtornos mentais, de funcionamento neuroatípico.

A sociedade assedia essas pessoas. A sociedade as mata.

Mas o trailer é genial. Será um excelente filme.

Em meia dúzia de cenas descobri que Coringa é um clichê. Ele possui transtornos mentais, foi criado apenas pela mãe (maioria das crianças com deficiência são abandonadas pelo pai), foi institucionalizado várias vezes, não consegue se empregar, não se encaixa e faz todo esforço para se encaixar em um mundo que obviamente não o quer. Porque a sociedade do Batman é a dos vigilantes. E esse conflito foi todo trabalhado em Dark Night do Nolan. Em a liga da justiça, é feita piada com o super poder do Batman ser ele ser rico. Batman foi criado nos anos 30, após a crise de 29, em um cenário de desemprego e fila do pão (literalmente, existia uma fila do pão), porque os grandes capitalistas destruíram a economia estadounidense. Aparentemente, seguirão nesse filme a lógica da tirinha abaixo:

Quadrinhos da imagem: Todos sabem que Gothan City é violenta todos sabem. Ao perguntar para um sociólogo sobre isso, ele responderá que o motivo é a concentração de renda. Quem concentra renda em Gothan? Bruce Wayne! Quem combate criminalidade na cidade? Batman! Então deixa ver se entendi: Não satisfeito em gerar milhares de excluídos… O playboy sai à noite para meter a porrada neles? Mas é muito cinismo!

Voltando aos anos 30, a lógica no período vigente sobre como lidar com deficiência, com quem foge à norma era apenas uma: encarceiramento em instituições, em caso de sorte, porque era isso. A pessoa era institucionalizada e nunca mais reintegrada socialmente de verdade. Ela era excluída socialmente. E isso era melhor que a possibilidade que surge na Alemanha no mesmo período com a ascenção do nazismo: eutanásia. É óbvio que nesse tipo de sociedade, os neurodivergentes são assustadores. Eles são os vilões.

Em 80 anos, nada mudou. Pouco mudou. Nos Estados Unidos atuais, os planos de saúde fazem a festa, se dando o direito de negar tratamento e terapias. E no Brasil… Querem desmontar o CAPS. Que ajuda justamente essas pessoas. Que precisam ser integradas na sociedade. Porque são pessoas.

A referência porém a Heath Leadger e sua construção personagem é maravilhosa.

No Brasil , as crianças neurodivergentes com a política de desmonte do caps são as que mais sofrem. Porque elas precisam de ajuda para conseguirem atingir uma curva de “normalidade” e não acumularem comorbidades como quem junta pedrinhas pesadas no caminho.

Pergunte para um neurodivergente qualquer. Ele vai falar da bagagem adquirida durante a infância por falta de tratamento, por questão do bullying, por conta do assédio institucional escolar, que raramente resolve questões de bullying com a eficiência necessária.

Quem é deficiente, quem é neurodivergente, quem não agrada aos olhos, é sozinho.

O filme será excelente. A fotografia promete. O ator é muito bom. A trilha sonora parece que vai ser excelente. E ser um filme para adultos vai fazer com que ele trate assuntos que geralmente não são tratados. Pelo menos é o que o trailer me promete.

E não, não há ironia nenhum nos parenteses. Em nenhum deles há ironia. Só que existem bagagens de várias vidas com as quais esse filme tratará. O problema é que quem nunca passou por certas coisas, não as vê, não as percebe, e principalmente não se importa. Elas apenas passam como a sequência de imagem que fazem com que acreditemos que existe movimento no filme.

Quem é neurodivergente muitas vezes é sozinho. O filme também vai ser sobre solidão, por que no fim, é como a música:

One is the loneliest number that you’ll ever do
Two can be as bad as one
It’s the loneliest number since the number one

No is the saddest experience you’ll ever know

Tradução: “Um é o número mais sozinho que você vai ter, dois pode ser tão ruim quanto um. É o número mais sozinho depois do número um. E não é a experiência mais triste que você jamais vai conhecer.”

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