Ana Lorena era uma linda menina que sempre atraía olhares por causa da cor de sua pele negra. Nasceu em uma linda tarde de junho, com a pele linda, esbanjando melanina. Seus cabelos eram lisos e negros, mas, com o passar do tempo, ficaram ondulados. Os olhos pareciam jabuticabas: escuros e brilhantes, transmitindo toda a sua doçura, meiguice, intensidade e beleza.
Ao chegar do hospital, amigos e vizinhos de seus pais foram, aos poucos, conhecer a pequena Lorena. A maior curiosidade parecia girar em torno da cor da pele da pequenina:
— “Como ela é tão moreninha!” – diziam alguns visitantes.
Ana foi crescendo e, com apenas cinco anos, já ouvia perguntas sobre sua cor. Com toda sua criatividade, formulou uma resposta cheia de muita sabedoria e amor.
À sua mãe continuavam perguntando:
— “Ela pega muito sol?”
— “Por que é tão moreninha?”
A resposta da pequena era sempre a mesma:
– “Mamãe, Deus me fez de chocolate, por isso minha pele é marrom. Ele pegou uma forma, assou os chocolates e me formou. Chocolate é tão bom! Eu amo chocolate! Você também ama, né, mamãe?”
— “Eu sou marrom, da cor de chocolate!”
Assim, de maneira tão inocente, ela desmontou o racismo e preconceito, com a força da própria ternura. A pequena menina esperta mostrou, com muita sabedoria, amor e orgulho pela própria cor, trazendo esperança e alegria. Sua pele, rica em melanina, era símbolo de ancestralidade e ressalta a beleza negra feminina desde a mais tenra idade.
Ana Lorena foi crescendo e também precisou aprender, desde cedo, a rebater o preconceito na escola.
Um dia, durante uma aula de Arte, a professora pediu:
— Crianças, hoje nossa atividade será um desenho. Vocês deverão desenhar a si mesmas.
Ana fez seu desenho e escolheu uma cor para começar a pintar. Pegou o lápis marrom e coloriu o rosto, os braços e as pernas com cuidado. Quando terminou, sorriu. Estava ali, inteira no papel.
Mas alguns colegas começaram a cochichar.
— Por que você não usou o lápis cor de pele? — perguntou um menino, mostrando um lápis bege.
Ana olhou para o desenho, olhou para sua pele e, por fim, para o lápis marrom. Respondeu baixinho:
— Eu usei.
Naquele dia, Ana voltou para casa com o coração apertado e cheia de dúvidas. Sentou-se à mesa da cozinha, onde sua tia mexia uma panela de chocolate quente, e perguntou:
— Tia, existe lápis cor de pele?
A tia sorriu com doçura.
— Existem muitas cores de pele, minha menina. Olhe para nós duas.
A tia pegou a colher, levantou um pouco do chocolate e disse:
— Está vendo esse tom? É marrom. Como a terra que planta, como o café que acorda, como o chocolate que conforta. E como você.
Quando o chocolate ficou pronto, Ana pegou uma xícara, colocou um pouco e mergulhou o pão no chocolate e sentiu o calor espalhar por dentro.
No dia seguinte, sua tia lhe deu um presente muito especial: uma caixa de lápis com muitos tons de marrom.
A menina levou a caixa para a escola e, quando a professora pediu outro desenho, dividiu os lápis com os colegas e disse:
— Escolham a cor que mais parece com vocês.
A sala ficou colorida de verdade, com diferentes tons de pele. Havia peles claras, escuras, douradas, rosadas. Todas diferentes. Todas muito bonitas.
Ana usou novamente o marrom. E, dessa vez, ninguém estranhou.
Ela aprendeu que sua cor não precisava ser explicada.
Ela tinha uma pele doce. Ela era doce.
Como chocolate.
Texto de: Suzana Macêdo Nunes Gomes – @suzana.nunes.9279
Revisão: Bibianne Terra





