Fubá, óleo, açúcar, ovos, leite de coco, coco ralado, fermento e uma pitada de sal.
De tanto vê-la preparar a broa de fubá, gravei os ingredientes, o cheiro que invadia a casa, o sabor e a textura. Algumas memórias o tempo não apaga.
Há exatos 13 anos tento acertar o ponto. Mudo a quantidade dos ingredientes, experimento novas medidas, recomeço. E, ainda assim, falho.
Minha mãe nunca deixou a receita escrita. Durante muito tempo achei que era isso que eu procurava. Hoje entendo que não era a receita. Era ela.
Minha mãe dizia que o segredo da comida gostosa era o amor. Na época, eu achava que era só um jeito bonito de falar. Hoje penso que talvez ela estivesse me ensinando algo que eu ainda não tinha como compreender.
Ela gostava de cozinhar para a gente. Quase todos os dias me pedia ajuda para decidir qual seria o almoço. Cozinhar, para ela, era uma forma de dizer que nos amava.
Tenho muitas lembranças de acordar e encontrá-la na cozinha. Antes mesmo de o café ficar pronto, eu ia abraçá-la. Era uma cena tão comum que nunca imaginei que um dia sentiria tanta falta dela.
A broa de fubá aparecia nos cafés da tarde e sempre que havia uma visita. Era uma alegria silenciosa. Enquanto ela preparava tudo, a casa ia mudando de cheiro e parecia ficar mais acolhedora. Hoje percebo que não era só a broa que aquecia a casa. Era a presença dela.
Eu achava que a pior dor seria a despedida, o dia em que a vi pela última vez. Mas, quando me tornei mãe, sua ausência voltou a pulsar de um jeito diferente.
Como estrear nessa função sem o seu apoio? Justamente ela, que fazia questão de ser a cuidadora oficial de todas as estreantes da maternidade na família.
O nascimento do meu filho me levou para um lugar que eu sempre sonhei estar, mas também para um lugar de muito medo. Como cuidar de alguém sem ter o meu principal alicerce? Como me tornar o lugar seguro de uma criança sem poder correr para o meu lugar seguro, que sempre foi ela?
Todas as vezes que me sinto perdida ou muito chateada com alguma coisa, ainda sinto falta dela. Não porque ela tinha resposta para tudo. Ela não era de muitas palavras. Era de acolher. De abraçar. De me deixar chorar até eu me acalmar. E, de algum jeito, isso sempre bastava.
Buscar sua presença em uma receita e não encontrá-la me coloca diante das perguntas que nunca foram embora.
O que, de fato, se foi quando ela partiu? O que permanece vivo dentro de mim, mas já não posso tocar? Como apresento você ao meu filho? Seu neto, que tenho certeza de que teria sido tão amado e tão mimado por você.
Quantas vezes conversamos sobre esse futuro que chegou para mim, mas não para ela. Quantas vezes imaginei você segurando meu filho no colo, dizendo que ele se parecia comigo ou encontrando um jeito de acalmar os meus medos, como sempre fez?
Foi só depois de me tornar mãe que entendi que algumas receitas não são feitas de fubá, óleo, açúcar ou leite de coco. Elas são feitas de gestos, de presença, de afeto.
O que uma mãe deixa para um filho quase nunca cabe em uma folha de papel.
Talvez eu nunca descubra a receita da broa de fubá da minha mãe. Talvez ela nunca tenha existido em medidas exatas. Mas hoje percebo que, sem saber, ela escreveu outra receita em mim. A receita de um abraço que cura, de uma casa onde as pessoas se sentem amadas, de um cuidado que não precisa de muitas palavras.
E talvez seja essa a herança mais bonita que eu possa oferecer ao meu filho. Toda vez que o abraço quando ele chora, toda vez que preparo uma comida pensando nele, toda vez que tento fazer da nossa casa um lugar de afeto, um pedaço da avó que ele nunca conheceu continua vivo.
Talvez essa seja a única receita que realmente importa.
Texto de: Silvana Lanes – @silvanalanes
Revisão: Bibianne Terra





