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Tornaram minha pele alvo fácil, passaram a dizer o quanto eu não era capaz desde a infância. Nunca fui protagonista das minhas vivências e em nenhum ciclo que habitei me senti acolhida, mas hoje faço questão de ocupar lugares que aparentemente não me cabe, mas isso não é tão simples. 

É doloroso e incômodo o quanto não vejo mães pretas desfrutando da companhia de seus filhos em um dia de sábado numa praia lotada de mães. Eu ocupo esses lugares de alguma forma, e a minha presença é um grito sútil de ocupação: Estou aqui!

Mas estar aqui é solitário! Vejo os olhares atravessados, mas resistir faz parte da minha essência. Eu até me tornei a própria resistência, mas isso me deixa um tanto reflexiva sobre quantos lugares minha mãe preta não se sentiu bem e não foi acolhida, e quanto de dor isso pode ter causado. Parece simples, mas ocupar lugares com nossos corpos pretos é um ato de bravura. 

Cresci com a mentalidade de que se eu passasse despercebida eu não seria alvo de racismo, mas acreditem, o racismo te acha! Quando tive consciência disso, passei a ocupar lugares que nunca ocupei antes, talvez numa tentativa de curar a “mini Bia” que habita em mim, dos processos dolorosos que o racismo causou. Mas ocupei, com força e coragem. 

Quando me tornei mãe, me isolei e tive que reaprender a resistir, e para além disso, tive que descartar uma bagagem cheia de traumas para que essa também não fosse a bagagem dos meus filhos. 

É preciso coragem para ser uma mãe e ocupar os espaços, pois agora não é uma luta só sua, e você não está lutando só contra racismo, você está indo contra uma sociedade que te diz indiretamente não ser pertencente, que você não pode socializar como mãe, ou como mãe acompanhada de seus filhos. Um exemplo disso está naquela frase que todas nós estamos cansadas de escutar “Mas você está aqui e quem está com as crianças?”, ou se estamos com as crianças também ouvimos: “Você acha que esse lugar é adequado para seus filhos?”. Isso é exaustivo! Mas, com o tempo, as caras e bocas se tornam irrelevantes e você só é uma mãe desfrutando do prazer de viver ao lado de suas crias. 

Resistir nunca foi opcional, mas aprendi que nossa história tem que ser nosso combustível, a nossa história precisa ser olhada com força, pois é isso que somos força e, além disso, somos coragem.

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