Coluna – Como você se sentiu hoje?

A mother lovingly engages with her child at a lively indoor gathering.

Setembro é o mês em que a gente fala muito sobre saúde mental, empatia, estender a mão e lembrar que pedir socorro exige coragem. Na prática da neuropsicopedagogia, percebe-se que muito pode ser feito na infância, quando a gente ensina uma criança a olhar para dentro de si, reconhecer o que se passa no seu interior, nomear seus sentimentos e emoções e entender que o medo ou a tristeza podem ser superadas quando temos uma mão reconfortante conosco.

Nenhuma criança nasce sabendo verbalizar: “estou frustrada”, “estou ansiosa” ou “estou com medo”. O que vem primeiro é o choro sem motivo aparente, a irritação, a birra, o silêncio. É aí que o olhar do adulto precisa ser mais preciso e atento. O erro comum é enxergar só o que está evidente: a birra, a desobediência, a falta de limite. Só que, por trás de todo mau comportamento, quase sempre existe alguém sem saber o que fazer com os conflitos que está sentindo.

Acolher a criança não é sinônimo de passar a mão na cabeça ou liberar qualquer comportamento, mas pegar a mão e ajudá-la a se organizar por dentro. Quando o adulto se abaixa na altura da criança e diz: “Eu sei que você está chateado. Vamos respirar fundo e conversar?”, o ganho vai muito além de apagar o incêndio daquele minuto, torna-se uma ferramenta para a vida inteira porque o que se costuma fazer, machuca.

Dizer “isso não é nada”, “engole o choro”, “você está fazendo drama à toa” ou “eu passei por isso e estou vivo” pode ensinar que certas partes de quem somos precisam ser trancadas a sete chaves para merecer o amor dos outros. E o que a gente esconde não some, só vai se acumulando e esse acúmulo dói.

Na sala de aula, essa dor muda de nome. Vira desatenção crônica, queda nas notas, birra para fazer a lição, briga com o colega ou aquela dor de barriga que médico nenhum descobre a causa. Nem sempre o problema é na aprendizagem. Muitas vezes é a aprendizagem que está sufocada pelo sofrimento emocional.

Quem vive na educação e na saúde tem visto isso disparar: mais ansiedade, mais choro, mais crianças e adolescentes sem saber lidar com os próprios conflitos. São muitos os culpados: o excesso de telas, a pilha de estímulos, a cobrança absurda e a pressa do mundo moderno. Por isso é tão importante trabalhar a saúde emocional desde pequeno.

Como podemos fazer isso? Com aqueles cinco minutos sentados ouvindo sem atropelar a fala da criança; na pergunta sincera sobre como foi o dia, com o celular guardado no bolso; no erro aceito como parte do caminho, e não como algo imperdoável; na nossa própria vulnerabilidade quando mostramos que os adultos também sentem raiva, cansaço e medo, mas já conseguem lidar com isso porque criança aprende com o exemplo. Se a gente engole tudo, elas engolem também. Se a gente resolve o estresse no grito, elas entendem que o mundo funciona na base da brutalidade. Crescer num ambiente em que o erro tem espaço e o sentimento tem voz muda a estrutura de uma pessoa. A vida não será indolor, mas quando sair do eixo, ela vai saber exatamente para quem olhar e dizer que precisa de ajuda.

Matemática é essencial, alfabetizar nos apresenta o mundo, mas ensinar uma criança a decifrar o próprio coração, confiar em quem está por perto e entender que errar faz parte da nossa humanidade talvez seja o maior legado que podemos deixar.

Neste Setembro Amarelo, vale o teste. Da próxima vez, antes de perguntar o que caiu na prova, experimente olhar nos olhos da criança e perguntar: “Como você se sentiu hoje?”

Autor

  • Janice Moreira

    Janice Cordeiro, ou simplesmente Jan, é mãe de Olavo e Olívia. Mineira de Ipatinga, vive em Teófilo Otoni. Formada em Pedagogia pela UFV, Neuropsicopedagoga, dedica-se ao estudo da infância há mais de 20 anos e é autora de três obras de poesia e quatro infantis: “Olá, Olí!”, “Lia e a IA”, “A revolta das batatas” e “Nina chove de rir”, nos quais une conhecimento, sensibilidade e imaginação. Instagram @jancordeirom

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