Acordo antes do sol. Antes mesmo de mim.
Meu tempo de te olhar dormindo é contado. O despertador tocou para o segundo turno da vida, aquele que acontece fora de casa, onde sou mais do que mãe.
Visto uma roupa que diga “profissional”, mas que também tolere um pouco de banana amassada ou um beijo babado de despedida. O café é tomado às pressas, enquanto resolvo pequenas missões: separar a mochila, organizar a rotina do dia, checar se tudo está no lugar.
Quase na porta, escuto um “mamãe”. Você acordou, e eu não sei se fico feliz em te ver antes de enfrentar o dia ou se quero me afugentar… O famoso “o que os olhos não veem, o coração não sente”.
Na porta, você já entrega minha bolsa e me dá tchau. É sempre o mesmo roteiro, mas nunca a mesma sensação. A culpa, essa velha conhecida, se aconchega em mim como se fizesse parte do uniforme.
No elevador, respiro fundo. E lá vou eu, transitar entre dois mundos.
No trabalho, sou ágil e centrada. Mas basta uma notificação no celular para que tudo se misture. Uma febre inesperada, um “mamãe” dito com entusiasmo por um áudio ou apenas uma foto enviada no meio da tarde. O coração aperta e, por um instante, me pergunto: “Será que estou onde deveria estar?”
Então, o dia passa. Volto para casa como quem retorna ao lugar mais seguro do mundo.
Abro a porta e, antes que qualquer culpa me alcance, vem correndo aquele abraço de quem só quer saber que eu voltei. E é nesse momento que entendo: não sou metade aqui e metade lá. Sou inteira nos dois mundos.
Mas há um terceiro mundo que ficou para trás.
O mundo das palavras, dos textos que antes fluíam entre uma mamada e outra, entre um cochilo e um pôr do sol visto da janela. Desde que voltei ao trabalho, elas foram silenciadas pelo cansaço, pela rotina corrida, pelas horas que já não sobram.
Hoje, escrevo como quem abre de novo uma porta que ficou tempo demais fechada. Como quem retoma um pedaço de si que, por um tempo, precisou esperar.
Porque, no fim, talvez a maternidade seja sobre isso: se perder um pouco e se encontrar de novo.
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Autora: Ruany Azevedo – @maeporescrito