Mulheres-mães protagonistas da própria história

A maternidade nos multiplica

A maternidade nos multiplica

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Quando uma fruta é colhida do pé, ninguém pergunta para a árvore qual o tamanho do esforço realizado. Embora desconheça a origem semântica da palavra árvore, penso não ser à toa tratar-se de um substantivo feminino. Assim como a árvore, as mães que estendem seu trabalho para além do lar, também produzem esses frutos a partir de uma infinitude de esforços invisíveis e não valorizados.

Fomos forjadas em um sistema nada matemático de distribuição amor e doação. É o ciclo sistêmico da vida nos intuindo a cumprir nossos deveres, tarefas e prazeres, com culpas, arrependimentos, alegrias, realizações, inseguranças. Foi desse modo que fomos ensinadas a dançar, desde muito cedo. E o ritmo da dança é múltiplo, complexo. Exige o acúmulo de muitas facetas de nós mesmas. Contrabalançar necessidades, equilibrar demandas, distribuir prioridades. Essa é a fórmula de realizar o ser mulher, mãe, esposa, profissional.

Em alguns momentos alcançamos o esperado, em outros não. E partindo dessa cadência elegemos o próximo passo a ser dado.

Esse compasso nada simples de elementos e sentimentos é o que qualifica a mãe empreendedora. Faz de nós multiplamente férteis e capazes. A maternidade não nos limita, ela nos multiplica. As necessidades de nossos filhos nos fazem mais pacientes, resilientes. A vontade de vê-los crescer bem, nos faz persistentes, comprometidas.

Precisamos aprender a organizar, a planejar e a prever para conseguir evitar ao máximo os percalços. As emergências e imprevistos nos fazem criativas e nos empoderam na solução de conflitos. Por uma lista infindável de motivos, a maternidade nos faz profissionais maiores, melhores.

Assim, se nosso ventre honra nossos laços ancestrais, nosso intelecto honra a história de luta de muitas mulheres sacrificadas antes de nós, as quais a possibilidade de existir além do gestar foi negada. Explorar atividades intelectuais (e braçais também) em outros tempos exclusivas dos homens, obtendo sucesso por meio delas é o nosso modo de contar ao mundo que o ventre não é o único portal por meio do qual as mulheres contribuem na edificação do plano terrestre. Nosso intelecto é tão fértil e capaz quanto o primeiro portal da vida.

Somos multiplamente capazes e fomos naturalmente forjadas para isso, mas o esforço oculto e não reconhecido em tanto a fazer acaba por ser o novo viés da opressão que limita a mulher neste tempo. Essa opressão se expressa na exaustão, na depressão e em incontáveis sonhos arquivados sob a força de mãos calejadas, ombros cansados e noites mal dormidas.

Já é tempo do trabalho feminino, e das mães em especial, em suas múltiplas formas de ser realizado, ser muito mais do que um esforço oculto e não visto, acerca do qual ninguém se questiona.

Nosso esforço e nossas necessidades precisam ser observados, debatidos e amparados. 

Precisamos de suporte e soluções equânimes para a vida prática.

  • Que tenhamos direito ao descanso físico e mental, que exista um comprometimento efetivo no compartilhamento das tarefas domésticas e familiares;
  • Que a rede de apoio seja compreendida como necessária e indispensável, não como uma reclamação vaidosa de mães que querem uma vida mais fácil; 
  • Que as empresas olhem para suas mães funcionárias como verdadeiras e potentes trabalhadoras e compreendam os intervalos necessários para o exercício da maternidade;
  • Que as mães recebam o suporte como verdadeiro incentivo e não como uma dívida impagável; 
  • Que o apoio ao trabalho materno passe a ser entendido como um investimento real na sociedade, pois ser mãe não deve ser mais uma das tarefas, ser mãe deve ser o maior e mais importante de todos os projetos,  a grande empreitada, a maior de todas as nossas funções.

Compreender isso é benção e também cura para cada uma de nós e para todos.

Esse não é apenas um discurso utópico e idealizado. É uma necessidade real e capaz de contribuir para uma sociedade mais harmônica e equitativa. Reduzir a sobrecarga das mães é permitir que sua fertilidade intelectual aflore, dinamizando e potencializando a capacidade de crescimento de toda a sociedade.

Olhar para o não reconhecido esforço do empreender materno é medida de inclusão. É permitir que quem produz frutos, o faça exercendo um papel que ultrapassa seu próprio ser único e individual. Afinal, não precisamos ser apenas árvores, quando podemos ser uma floresta inteira.


Autora: Elisa Ortolan da Costa – Instagram: @elisaortolandacosta.


Revisado por Daiane Martins.

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