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“Mãe é doida. É tão doida que dela nasceram filhos.”

Clarice Lispector

Só quando me tornei mãe foi que percebi o quanto a maternidade envolve saber lidar com despedidas. Quando recebemos o emocionante “positivo”, já começamos a nos despedir do corpo, das roupas e do estilo de vida anterior. – Bye, Bye, até outro dia, ou, na maioria dos casos, até nunca mais! Depois, vem o parto e somos obrigadas a nos despedir do bebê dentro da barriga, e, claro, da barriga em si e de toda aquela sua excelência – entre mimos, paparicos e prioridades. – Au revoir!

Daí, o bebê começa a andar e, rapidamente, temos de nos despedir da criança de colo. Depois, vem a escola e somos obrigadas a dizer “até breve” ao(à) nosso(a) pequeno(a) que ficava em casa o tempo todo, sob nosso olhar cuidadoso. Estamos tão perplexas com tudo, que nem percebemos direito: aquele cheirinho de loção infantil e pomada anti-assadura que ocupavam toda a casa já deram lugar ao suor do futebol, do balé ou do caratê. Eles foram crescendo, crescendo, crescendo, e tudo isso diante dos nossos olhos atônitos de mãe.

Até que um dia eles seguiram o movimento natural: saíram de casa para morar sozinhos, com os amigos, ou até mesmo em outro país, casaram, enfim, não importa. O fato é que eles se foram. E seguimos nos despedindo, de espanto em espanto. Para nosso consolo, algumas despedidas podem ser temporárias. Como, por exemplo, com certa dose de sacrifício, talvez seja possível voltar a caber naquele jeans juvenil de outrora. Outras, no entanto, não têm mais volta. E seguimos na tentativa de aceitar que muitos dos nossos antigos sonhos também já não nos cabem mais, e só nos resta dar aquele definitivo “adeus”. – Ciao, ciao!

Em muitos casos, essas frequentes “despedidas maternas” são vivenciadas envoltas por uma melancólica saudade: do que poderíamos ter sido e não fomos, do que vivemos, e do que ainda não vivemos, da experiência única de potência que é gerar um outro ser, da importância central que éramos na vida de nossos pequenos, enfim, são muitos os implicadores – e nada mais natural. No entanto, o paradoxo da despedida está justamente no fato de que nela também há espaço para o novo, basta que tenhamos a coragem de abrir essa brecha. Eis um dos nossos maiores desafios.

Quando nos tornamos mães, somos cooptadas a viver no universo das contradições, do qual nunca conseguiremos sair, e no qual jamais estaremos presas. Esse é o universo amoroso da maternidade. Entre novidades, despedidas e saudades, importa-nos compreender que nós, mães, somos passagem – dentre tantas outras importâncias. Nossos filhos nos atravessam (vêm de uma longa viagem “do mundo invisível ao visível”*), e devemos deixá-los seguir. Somos travessia, apego e liberdade. Somos essa paradoxal despedida. – Hasta la vista!

Autora: Caroline V. Nogueira | Psicóloga Perinatal/Jornalista/Tradutora

www.neuronio49.com.br | @carolinevnogueira

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