A ética do Maternar coletivo: relato do meu percurso formativo e transformador em Psicologia

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Ao mergulhar na elaboração deste artigo, deparei-me com uma verdadeira travessia não apenas uma busca por respostas científicas, mas um percurso que se entrelaça profundamente à condição existencial de quem escreve e também de quem lê. Escrevo a partir das histórias que ouvi e das inquietações que carrego na minha identidade de mulher, mãe, profissional e pesquisadora da maternidade e da saúde mental. Para mim, tem sido um aproximar-se de um universo de fragilidades e forças, de dores que crescem de modo muitas vezes silencioso, vindas de todos os lados da experiência própria, dos atendimentos, da análise dos dados que se acumulam e se repetem.

A cada leitura, a cada relato de depressão pós-parto, a cada gesto de exaustão que encontrei, percebia que falar de adoecimento materno é falar de mim e das mulheres que cruzaram meu caminho: vizinhas, pacientes, colegas, mães solo, mães em diferentes arranjos familiares e até mesmo aquelas que decidiram não maternar.

Ao revisitar autoras como Badinter, Laconelli e Zanello, compreendi que a ideia de “instinto materno” compõe um dispositivo histórico que me atravessa desde a infância. Somos levadas a crer que o cuidar é natural ao feminino, que as dores da maternidade fazem parte de um sacrifício heroico, por vezes justificado biologicamente. Descobrir, por meio dos textos, que esses mitos funcionam como mecanismos de controle social foi ao mesmo tempo libertador e revoltante. Senti uma ambivalência profunda: culpa por pensar diferente do esperado e alívio por reconhecer o adoecimento materno como resultado do contexto, e não de uma suposta “escolha” ou “fraqueza” individual.

No percurso, deparei-me com dados alarmantes trazidos pelo laboratório de estudos ThinkOlga (2019): sete em cada dez mulheres jovens no Brasil convivem com sintomas de ansiedade ou depressão. Não estão apenas exaustas física e emocionalmente estão ansiosas pelo risco financeiro, solitárias diante da dupla jornada, pressionadas por padrões estéticos inatingíveis e frequentemente responsabilizadas sozinhas pela saúde dos filhos, como se a maternidade fosse um território exclusivo e intransponível.

Durante o estágio na clínica psicológica, minha escuta se tornou inquieta diante das mães sobrecarregadas que chegavam ao consultório. Muitas narravam o cansaço das tarefas, a solidão das noites mal dormidas, a culpa por desejar mais para si. A escuta, enquanto ferramenta, exige uma escolha ética: não se trata de sugerir resiliência, mas de reconhecer que as escolhas e os sofrimentos das mulheres são estruturados por desigualdades que se conectam ao patriarcado, ao racismo e à exclusão. Ou seja, têm bases fincadas no contexto social. Enxergar o sofrimento materno como questão coletiva e não como problema individual foi o maior aprendizado que minha formação em Psicologia me proporcionou.

Aquilo que a sociedade insiste em tratar como experiência singular revela-se, na análise, profundamente entrecruzado com contexto, classe, cor e história. Mulheres negras, como narra Angela Davis, vivem maternidades dissociadas do ideal romântico: são despossuídas até mesmo do direito de serem reconhecidas como mães. Pensei nas mulheres que perderam seus filhos para o mercado escravista, nas que ainda hoje trabalham em espaços onde o cuidado se converte em exploração, e às quais é negada a dimensão do prazer e da escolha. O sofrimento dessas vivências singulares e ao mesmo tempo múltiplas me fez revisitar meus próprios privilégios e limitações.

Ao refletir sobre o desejo de maternar, percebo que ele não é apenas um impulso pessoal. É atravessado por questões materiais, pela possibilidade de exercer liberdade, por expectativas de realização profissional, por dilemas internos e externos que a sociedade insiste em disfarçar. Qual é o preço da escolha? O que é possível conservar da própria identidade diante da multiplicidade de papéis que a mulher contemporânea precisa assumir? Descobri ser impossível pensar maternidade sem considerar as perdas de tempo, de liberdade e de autocuidado. E, acima de tudo, que o sofrimento materno pode surgir tanto da maternidade vivida quanto da não aceitação do desejo de recusá-la.

Compreendi que o exercício de ouvir mães que adoecem requer aprimoramento técnico, sensibilidade social e compromisso coletivo: não há escuta clínica eficaz sem o reconhecimento das bases históricas do sofrimento feminino.

Percebi que as mudanças hormonais e físicas são apenas uma parte do caminho o que verdadeiramente adoece é a sobrecarga, o descaso, a invisibilidade e o abandono, vividos especialmente por mulheres pobres e negras, que além do trabalho reprodutivo acumulam múltiplas jornadas em silêncio, sem suporte familiar e/ou das políticas públicas.

Por um cuidado ético e coletivo

Ao finalizar este artigo, compreendo que cada vivência é única, mas todas precisam de reconhecimento, acolhimento e suporte real. Importa não apenas debater saúde mental, mas transformar os espaços de cuidado em lugares de justiça, afeto e apoio legítimo. Meu desejo como psicóloga e pesquisadora é que a escuta clínica ultrapasse os limites do individual e alcance o coletivo, ressignificando o sofrimento materno como expressão de direitos violados e como potência de transformação social.

A maternidade, longe de ser apenas destino, é também escolha — e o cuidado não pode ser uma responsabilidade exclusiva da mulher, mas compartilhada por toda a sociedade.

Por Eveline Alves Ribeiro – @eveline8183

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