O corpo que nos foi ensinado a rejeitar

Uma vez li uma frase: “O corpo existe em um universo socialmente mediado” e, desde então, profundas reflexões ressoam por aqui sobre em qual lugar nossos corpos são colocados e como são marginalizados, oprimidos e não aceitos.

Os padrões culturais de uma sociedade criada a partir dos conceitos de beleza colonizados, que nos dita o que é belo, o que é certo e o que é bom, nos trouxe como referência o conceito de beleza totalmente distante do que somos enquanto mulheres latino-americanas.

A referência do corpo ideal, que se busca, é o magro, alto, branco. O corpo gordo, o corpo negro, o corpo baixo, o corpo indígena, o corpo com deficiência, o corpo que não condiz com o que se foi construindo e introduzido do que é belo, não é visto, é rejeitado — muitas vezes de forma inconsciente até por nós que o habitamos.

Por habitar esse corpo, que traz as marcas de nossas histórias, que compõe nossas memórias, que permite que possamos transitar, a nós mulheres gordas, negras, indígenas, baixas, com deficiências, tantas rejeições são direcionadas.

Não somos vistas pelo que somos, somos vistas pelo que apresentamos.

E, ainda que seja dito que esses corpos são bem-vindos, diariamente nos deparamos com a realidade de não serem bem aceitos. As buscas por um ideal que não é o que somos nos atravessam em tantos lugares que, diariamente, precisamos reassumir um compromisso conosco, o compromisso de que esse corpo receberá amor, cuidado e respeito.

Se pararmos e percorrermos um pouco da história, iremos achar registros que dizem que as mulheres belas eram aquelas com as ancas grandes, consideradas fartas e abençoadas.

Me pergunto muitas vezes: para que se atribuiu o belo ao corpo e silenciou a alma? Quantos prejuízos carregamos diante de uma sociedade que olha e se constrói apenas pelo externo e por conceitos e modelos que não são nem seus.

Nesses conceitos tão formados pelos modelos eurocêntricos do que é ser belo, quantas vezes muitas de nós somos oprimidas e nos oprimimos? Escutamos desde cedo que homens não vão nos querer quando não nos encaixamos nos critérios do que se é considerado beleza.

Nessa pressão que crescemos e somos expostas, inúmeros padrões e feridas se criam dentro de nós; feridas essas que diariamente precisamos lamber com calma e colo.

Penso eu que talvez um dos colos mais lindos que possamos nos dar enquanto mulheres é quando reconhecemos o nosso corpo como parte de quem somos, da nossa história, da nossa luta.

Habitar esse corpo também é um ato de revolução. Resistir diariamente, construindo as nossas referências e o cuidado com o que somos, não nos colocando em espaços, relações e histórias que nos anulam, é revolucionário.

Quantos discursos são feitos para nos dizer que nossos corpos são aceitos, quando ainda o corpo visto como belo não é o meu, e talvez não seja o seu…

Que possamos habitá-los com amor, com cuidado, com honra a tudo o que somos, a tudo o que fomos e a tudo o que ainda seremos.

Que nossos corpos sejam luta e revolução!

Assinatura: Carol Ienne – Instagram: @carol.ienne.psi

Revisora: Kátia Dias

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