Acordo com o chorinho da minha bebê. É a terceira vez esta noite. Levanto quase no automático, pego-a do bercinho acoplado à cama e encaminho a boquinha dela até meu peito. Tem meses que desisti de deixá-la no quartinho dela. O berço, super recomendado e caro, fica acumulando as roupas limpas saídas da corda e esperando ir para o armário.
Durante a gravidez, pensar sobre como seria o quarto da bebê parecia ser a coisa mais importante. Pensamos em cada detalhe, só não pensamos que a bebê acordaria a noite inteira para mamar e que esse percurso da minha cama até a dela seria tão exaustivo. Nos adaptamos e acoplamos um bercinho à nossa cama.
Olho para o lado e meu marido está dormindo, roncando. Fico com raiva. Como ele pode estar dormindo normalmente enquanto eu acordo de hora em hora para amamentar? Aliás, sentir raiva por ele ser homem estava se tornando normal.
Eu sei que ele não tem culpa, mas toda vez que ele levanta às sete horas da manhã para tomar banho e ir trabalhar, eu sinto raiva. Eu passei a noite toda amamentando. Às sete horas da manhã eu já estou exausta, mas não vou poder dormir. Vou levantar, trocar a fralda da bebê, amamentar mais um pouco, trocar a fralda de novo.
Amamentar. Trocar fralda. Eu só consigo tomar banho quando ele retorna para casa às seis horas da noite.
Às vezes eu me imagino saindo pela porta, ligando o carro, música alta. Dirigindo para lugar nenhum, só para ter alguns minutos de mim. Ter só minha companhia.
Num sábado eu quase fui. Os dois estavam dormindo. Peguei umas roupas, saí na porta e, antes de entrar no elevador, ouvi o chorinho. Sem nem perceber, tinha levado a babá eletrônica no bolso. Voltei.
Onde eu estava com a cabeça? Que mãe de merda. Eu amo minha bebê.
A semana passou como todas as outras, mas aquela pequena sensação de liberdade me invadiu e eu não conseguia mais deixar de pensar em como seria.
No sábado seguinte, planejei melhor minha fuga. Tirei leite e deixei armazenado na geladeira. Os dois dormiam tranquilamente. Peguei uma muda de roupa, minha bolsa, a chave do carro e fui. A babá eletrônica ainda no bolso.
Passei pela porta de casa, entrei no elevador, entrei no carro, liguei-o, mas não conseguia dar a partida. Comecei a chorar.
Mãe de merda.
As pernas não conseguiam apertar o acelerador, mas também não conseguiam sair do carro e voltar.
Depois de mais de dez minutos, saí da garagem. Com cautela, liguei o rádio.
Escolhi o caminho da orla. Os primeiros raios do sol já desciam para beijar o mar. Que cena bonita.
As lágrimas voltaram aos meus olhos.
Mãe de merda.
Os cabelos da minha menina, ainda tão ralinhos, lembravam os raios do sol.
Segui em frente. Ao final da praia havia um hotel. Decidi parar ali. Precisava dormir.
Na recepção me deram um questionário para preencher e, na pergunta “Tem filhos?”, as lágrimas voltaram a escorrer.
Marquei o sim, mas a culpa por ela não estar ali fez minha mão tremer e quase marcar o não.
Subi para o quarto, os olhos cheios d’água, mas ver aquela cama todinha só para mim me fez sorrir.
Me joguei nela, misturando choro e riso.
Pensei em ligar, em pedir perdão. Eu estava louca. Eu amo minha filha.
Mas os dedos se recusavam a discar o número.
A culpa ainda era menor que a exaustão.
Não sei dizer quanto tempo fiquei naquela cama com o celular na mão e as lágrimas molhando a colcha super branca do hotel.
O cansaço cobrou seu preço e eu adormeci.
Acordei com o sol lá fora já indo embora.
Por um breve momento esqueci quem eu era, o que estava fazendo ali, e fui até a sacada apreciar aquele lindo pôr do sol.
Já descansada e com a cabeça no lugar, era hora de voltar.
Meu peito respingando leite em excesso me lembrava que eu não amamentava minha filha havia um dia inteiro.
Mãe de merda.
Cheguei em casa. Abri a porta esperando encontrar a casa de pernas para o ar.
Qual foi minha surpresa ao entrar e ver a casa arrumada e os dois dormindo?
Primeiramente fui aferir a respiração. Estavam vivos.
As lágrimas voltaram e o choro agora era incontrolável.
O barulho do meu choro acordou meu marido.
Ele me olhou e não disse nada. Só me abraçou, me acolheu em seus braços.
Fiquei ali repetindo a frase:
— Mãe de merda. Eu amo minha filha.
Ele acariciava meus cabelos e repetia que eu era uma ótima mãe.
Que eu só estava cansada.
Limpou minhas lágrimas com as mãos e falou que entendia eu querer um dia de folga.
Que sabia que a rotina era cansativa, mas que não sabia exatamente como ajudar.
Tudo era novo para ele também.
Prometeu que ia tentar deixar a rotina menos exaustiva para mim.
Perguntei como eles sobreviveram àquele dia.
Ele olhou para mim e falou:
— Eu me virei.
Era isso.
Ele se virou.
Eu passei o dia me sentindo culpada e ele se virou.
Me levantei, peguei minha bebê. Ela me viu e sorriu.
Se aninhou no meu peito e começou a mamar como se nada tivesse acontecido.
Eles sobreviviam a um dia sem meus cuidados.
E saber disso era um alívio.
Autora: Paula Soledade – Instagram: @letepasosa





