Voar voar, subir subir

A small bird resting on a branch amidst vibrant greenery during daytime.

Esses dias, meus filhos encontraram um passarinho no jardim.

Bento veio correndo dizer que tinha algo por lá e, quando eu vi, vieram dois pensamentos à minha cabeça: que merda e que merda. Daqueles pensamentos que você sabe que são errados, mas também não consegue pensar diferente.

Que merda! Esse passarinho recém-nascido provavelmente caiu do ninho. Tadinho! Nem penas o infeliz tinha e estava ali, agoniado, sem saber o que fazer, precisando de ajuda.

A segunda merda: essa ajuda sou eu? Mãe de três filhos, com mais uma terça-feira lotada de trabalho em home office, tarefas domésticas, cuidados com a casa, refeições para preparar, atenção para os meus próprios filhos e, agora, mais essa?

Olhei para o pássaro e expliquei a eles o que poderia ter acontecido. Disse que a natureza já estava cuidando daquele processo e que nós, por mais empatia que tivéssemos, provavelmente não conseguiríamos mudar o triste fim daquele animal.

Falei naquele tom de quem diz: “Que pena, mas não quero me envolver”.

Virei as costas e eles continuaram lá, olhando para o passarinho, cheios de vontade de mudar o rumo daquela história. E eu fiquei torcendo para que a racionalidade fosse maior que a solidariedade. Esse foi um tipo de coisa que aprendi ao longo dos anos de profissão, para não me tornar a assistente social que leva todo mundo para casa.

Fui andando para os fundos da casa até que os dois apareceram com o passarinho nas mãos:

“Olha, mãe! Ele está querendo comer! Precisamos salvá-lo!”

Esse ano eu decidi me cobrar menos. Ser menos exigente comigo mesma e sentir menos culpa por aquilo que eu sei que, de alguma forma, também vai me trazer algum incômodo.

É uma questão de sobrevivência. Por mais difíceis que sejam algumas escolhas e, mesmo que depois eu sinta culpa, não dá para querer abraçar o mundo e acabar sobrecarregada, exausta ou emocionalmente esgotada para que outra pessoa fique bem. Nesse caso, essa pessoa era o passarinho.

Assim como já me questionei se havia dado autonomia demais aos meus filhos em alguns momentos, fiquei pensando se não tinha dado também empatia demais, solidariedade demais e vontade demais de mudar o mundo.

Aquele passarinho certamente iria atrapalhar todo o meu roteiro já desorganizado e aumentar a bagunça que existe na vida. Mas o que é a vida senão isso? Milhões de acontecimentos surgem sem aviso e alguns deles, por mais que eu não os escolha, acabam sendo encaixados pelos filhos no meio da nossa rotina.

Virei as costas, fui para os fundos da casa, disse que não cuidaria dele e, minutos depois, lá estava eu assistindo vídeos sobre como alimentar um passarinho e procurando uma caixa de sapato para acomodá-lo, com um misto de sentimentos entre o “coitado” e o “por que eu estou fazendo isso?”.

Até o ex-marido biólogo foi acionado diante da possibilidade de dividir a guarda de mais um ser vivo.

Era só dizer não, Dani. Era só deixar o bicho morrer do jeito que a própria natureza havia determinado.

Era só fazer exatamente o que você mesma disse anteriormente: escolher o próprio conforto e carregar a culpa por essa escolha.

Mas, tudo bem, passarinho. Você venceu.

Já fiquei de cabelo em pé imaginando como faria para ajudá-lo a sobreviver ou como lidaria com a possibilidade de fracassar em mais essa missão. Mas as crianças estavam muito orgulhosas. Senti-me uma supermãe por ter cultivado esses valores nelas e, mais ainda, por perceber que eu também continuava sendo alimentada por eles.

Como em uma intervenção divina, compartilhei minha saga com o passarinho no grupo do Clube do Livro e uma mãe sugeriu que eu entrasse em contato com sua irmã, estudante de medicina veterinária que, entre diversos animais, já havia ajudado a salvar alguns passarinhos.

À noite, Geminho — nome escolhido por Alice porque ele a lembrava dos irmãos gêmeos Alice e Bento — foi de Uber para a casa da Mel.

E, mesmo com toda a turbulência provocada naquele dia, com toda a movimentação extra que se somou ao caos já existente do home office com filhos, tudo aquilo me trouxe a sensação de ter feito a coisa certa, principalmente quando vi nos olhos das crianças aquela vontade genuína de ajudar o passarinho a viver.

O senso de empatia e solidariedade que ensinamos aos nossos filhos parece nos alimentar de volta. E, por mais difícil que seja cultivar esses valores nos dias de hoje, ainda parece ser o caminho mais acertado. É como uma estrada cujo destino desconhecemos, mas que jamais descobriremos se não tivermos coragem de começar a caminhar.

Por: Danielle Lima – @daniellemlima

(Publicado em Divinas Tretas #55)

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal