Sempre me questionei sobre o sentimento materno, especialmente aquele romantizado que grande parte da sociedade cultua: a beleza e o brilho especial da gestante, o milagre de cada semana gestacional e o crescimento da barriga.
Eu, particularmente, tenho uma lembrança dos nove meses em que passei quase como quem sobrevive: engordando cada dia mais (até porque, ao final da gestação, 23 quilos foram somados à minha conta corporal), enfrentando náuseas, dores, perda da vaidade, medos sobre os comportamentos que deveria evitar para não causar danos ao bebê, inseguranças quanto ao trabalho e ao futuro e a perda de energia e de memória.
Não encontrei aquele brilho da gestante que todos diziam existir. Mas pior do que isso era relatar esses sentimentos para qualquer pessoa e ser julgada das mais diversas formas, até por amigos e parentes.
Com esse relato, não quero limitar minha gestação apenas a momentos ruins. Veja bem, tive, sim, muitos momentos de felicidade e uma gestação saudável, especialmente para o bebê, que sempre foi o meu maior foco. Mas gestar uma vida não veio atrelado a purpurinas e arco-íris. E acredito que este relato seja um ato de coragem da minha parte, pois, como disse, a romantização desse período não permite que uma recém-mãe expresse seus reais sentimentos sem ser julgada ou socialmente criticada.
De todas as mudanças, lembro com clareza da transformação do meu corpo. A cada mês que passava, mais peso eu ganhava e mais as pessoas me lembravam (como se não fosse óbvio) que eu estava grande. Perdi todas as minhas roupas. Meus pés aumentaram dois números. Meu corpo ganhou estrias. Ao final da gestação, lembro-me de usar apenas um chinelo e três conjuntos de roupas extralargas, que revezei por quase um mês.
Ali vi uma mulher que tinha um corpo dentro do padrão de beleza socialmente construído, tornar-se outra pessoa. Tive dificuldade de me aceitar, de me reconhecer. Associei minha imagem exclusivamente ao ganho de peso, não à de uma mulher gestante. Sentia saudades das minhas roupas, que encaixotei e coloquei no fundo do maleiro, como quem guardava, junto delas, uma versão de mim que eu já não sabia quando reencontraria.
Nas últimas semanas de gestação, eu me sentia culpada por não ter vivido aquele amor incondicional pela barriga, pelos nove meses. Culpada por não ter visto nem sentido esse período como algo mágico e divino. E, por isso, me culpei inúmeras vezes.
Lembro-me de quando meu filho nasceu com tamanha clareza que, ao fechar os olhos, é quase como se eu voltasse para o hospital, no dia e na hora da chegada do Rafa.
Ainda na recepção, nada de novo ou mágico tinha me atingido. Lembro-me da presença da minha querida doula, acompanhando-me a cada etapa. Eu me sentia como se as pessoas estivessem me dando uma atenção semelhante àquela que recebemos no dia do nosso aniversário, quando somos os protagonistas. Sem perceber que ali estávamos apenas eu e meu marido, mas que voltaríamos para casa em três pessoas.
Mesmo em trabalho de parto, optei pela cesariana e, com isso, fui me preparando, passo a passo, para receber meu filho. Lembro que estava com medo da cirurgia, medo de morrer, medo de sentir dor. Era só nisso que eu pensava. E, justamente por ter exclusivamente esses pensamentos, eu me culpava e, internamente, me punia, acreditando que não seria uma mãe suficientemente boa para o meu filho.
Recordava-me, com frequência, de uma frase que certa vez uma paciente minha disse: “Nasce uma mãe, nasce uma culpada.” E ali estava eu, completamente abalada por não sentir tudo aquilo que a sociedade esperava que eu sentisse na hora do parto.
Me preparei, deitei na maca, tomei a anestesia e deixei de sentir minhas pernas. Ouvi as vozes da equipe médica conversando como se fosse apenas mais um dia comum (porque, para eles, realmente era). E eu estava ali, deitada, nua, exposta e culpada.
Meu marido entrou na sala de parto para me acompanhar. Ele sempre me acalmou e me transmitiu segurança. Foi como se estivéssemos apenas nós dois ali, das 19h até às 19h42 de uma quinta-feira de verão.
Então, ele chegou.
Lembro da fala da médica, segundos antes de cortar a última camada e retirar o Rafael de dentro de mim: “Chegamos.”
Então eu ouvi.
Ouvi sem que ninguém precisasse forçar, incentivar ou encorajar.
Ele chorou.
E nos meus braços, ainda molhado, ele se acalmou.
Ele era tão pequeno, o segurei com força. Então, eu chorei.
E foi ali que eu entendi.
Ali meu mundo parou. O relógio da vida, por um segundo, pausou e me permitiu respirar mais fundo e despertar, como se eu tivesse permanecido, até aquele momento, em um coma profundo.
Como se eu finalmente tivesse aberto os olhos.
Meu filho nasceu naquela noite, mas eu ainda gestaria a mãe que escolheria ser para ele.
Então eu entendi que mãe não nasce mãe, não surge ou aflora seu instinto materno no primeiro teste positivo… Mãe escolhe ser mãe. Escolhe, todos os dias, abdicar de quem era ou até mesmo de quem seria. Escolhe amar sem nada em troca, escolhe se doar, escolhe abandonar seu antigo corpo que nunca mais voltará a ser o mesmo. Escolhe rever seu trabalho, escolhe ser uma nova mulher. Escolhe nascer de novo, todos os dias.
Uma mãe escolhe ser mãe… Escolhe rasgar a barriga para que uma nova vida possa acontecer e, enfim, escolher, todos os dias, rasgar o peito para que o coração possa pulsar fora dele… Agora, na nova vida que decidiu se entregar.
Autora: Marina Zotesso
Revisão: Laura Bonruck





