Se Doeu Nele, Ainda Dói em Mim

Caring mother with curly hair with little infant baby in arms standing near wall in light kitchen with cupboards in apartment

Eu estava grávida de trinta semanas do meu segundo filho, quando o meu primogênito, com um ano e meio de idade na época, sofreu um acidente doméstico: derrubou o coador de café sobre o próprio peito. Sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus.

Hoje, avalio que o fato de eu estar gestante na ocasião do acidente foi o que me manteve firme e forte para enfrentar tudo aquilo. Afinal, eu teria que parir dali a menos de dois meses. Até o chá de bebê improvisado e o ensaio fotográfico de gestante, compromissos que haviam sido cancelados, consegui remarcar e deu tempo de fazermos antes de o bebê nascer. As fotos do ensaio e da festa ficaram lindas, parecíamos felizes, mas a verdade é que eu ainda não tinha aterrissado.

Depois que o segundinho chegou, meu baby blues estava um pouco fora de controle… não era mais baby blues: era depressão pós-parto e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O acidente, junto com a queda drástica de hormônios que enfrentamos no puerpério, voltou como uma avalanche. Pretendo contar mais sobre isso e sobre meu processo de cura (em andamento) em outros textos. O texto de hoje é sobre uma frase que tenho ouvido e que já ouvi de várias pessoas ao contar sobre o ocorrido: “Coitadinho! Imagina a dor que ele sentiu!”.

Segundo a minha psicóloga (haja terapia!), ao ouvir uma história como essa, as pessoas ficam sem palavras e acabam falando bobeira. Fica aqui o meu manifesto aos ouvintes das mães que desabafam: quando desabafamos, nem sempre buscamos palavras de consolo, que dirá palavras que nos lembrem da dor sobre a qual estamos justamente tentando desabafar. Na maioria das vezes, o que a gente quer mesmo é colo e acolhimento. Buscamos uma expressão ou um olhar que diga: “Estou te ouvindo e prestando atenção em você”. Ou, quem sabe, um singelo, mas sincero: “Sinto muito que passaram por isso”.

A minha vontade, quando retoricamente me pedem para imaginar a dor que meu filho sentiu, é gritar que essa dor não sai da minha cabeça desde o dia do acidente. Que, quando, sem querer, encosto um dedo na panela quente e sinto uma dor imensa num pedaço tão pequeno de dedo, imaginar a dor que ele sentiu é tudo o que consigo fazer naquele dia, até ir me deitar para dormir. Parece fisiologicamente impossível para mim, como mãe, não imaginar a dor que ele sentiu e sentir com ele.

Hoje, quando conto para alguém, já não espero mais empatia, pois muito provavelmente eu receberei pena. Então, por que eu ainda insisto em contar? Porque ressignificar o que aconteceu é um dos grandes desafios da minha vida agora. Aceitar, não vou, mas ressignificar e superar, acho que vou, um dia. E mudar a narrativa exige treino. Estou treinando, também por orientação da minha psicóloga, para mudar a narrativa do que aconteceu de “coitadinho” para “superamos isso juntos e você foi muito forte e corajoso!” ou, como eu o chamava nos nossos dias de internação no hospital, “meu menino valente”.

Autora: Marilia Falcade
Revisão: Laura Bonruck

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