Injeção de Ânimo

Exhausted woman sleeps at her desk under a lamp with a laptop beside her.

Hoje, eu não acordei cansada. Cansada, eu acordei ontem, antes de ontem, antes de antes de ontem. Hoje, a maternidade passou por cima de mim, de salto agulha, sambando bem rápido, mas demorado, duradouro, semelhante às suas próprias contradições. O fato é que Eva – a cheia de vida – despertou às 4h30 e permaneceu ligada no 220 V até às 7h. Ou seja: 2h30 de samba. O suficiente para desfilarem duas escolas do Rio.

Rio de lágrimas. Foi o que houve quando Eva acordou após 1h de cochilo e, com a bateria recarregada, começou o reboliço novamente, subindo escada, querendo entrar na caixa de areia do gato – pobre do Apollo, vive escondido há um ano e um mês –, mexendo na máquina de lavar roupas que eu havia ligado mais cedo e querendo jogar algum jogo do tipo “De quem é a fralda?”. Dela, é óbvio. Pois era eu estendendo e ela tirando do varal de chão. Preciso de outro varal. Jesus!

“Eva, não! Eva, não! Não, Eva!”. Até que veio o motivo das lágrimas: numa dessas de salvar a filha de um escorregão, meti a cabeça no vidro da janela. Bem na quina. Dei um berro e fui pegar gelo. Eva se assustou a ponto de…? 

a) chorar;

b) gritar;

c) rir;

d) NDA. 

Nenhuma das anteriores. Disparou para o meu colo. Ligeira, enfiou a cara no peito. Eu chorando; ela mamando. Essa foi a cena. Com o seguinte detalhe: como eu havia usado todo o gelo no Natal e não tinha compressa térmica em casa (nota mental: comprar uma bolsa térmica!), tasquei um pacote de morangos congelados na cabeça.

Depois do choro, engoli a tristeza de estar sozinha no apartamento com a pequena sanguessuga e decidi descer para que a cria gastasse energia, para que o Apollo renovasse de algum modo a da casa e eu recuperasse parte da minha vendo gente. Consegui, graças à Lis/Liz/Lys/Lyz, uma criança daqui do prédio, até então desconhecida por mim. 

Estávamos apenas eu e Eva no parquinho quando surgiram um menino de cerca de cinco anos de idade, sua babá e uma geringonça inexistente na minha infância, há três décadas. Ele colocou o troço no chão e buscou o equilíbrio ao subir. Fracassou. Eu fiquei observando, por quase meia hora, as várias tentativas da criança, sem sucesso, com seu skate elétrico. Um olho na Eva, outro no Davi. 

Vi a babá tentar minimizar a frustração do pequeno: “É porque você é muito magrinho, meu filho. Se fosse mais gordinho, equilibrava-se melhor”. Ao que o menino, cansado e com ar de quem queria desistir, disparou: “Então vamos subir pra eu comer mais, Cris!”. E a cuidadora: “Não, senhor! Tá bom assim, magro. Depois engorda e vai inventar de tomar Mounjaro!”.

No meu pensamento: “É o que, véi?!”. Mas, depois de deixar escapar um breve riso, entrei em cena, apontando para o brinquedo: “Ei, você ganhou do Papai Noel?”. E o menino automaticamente: “SIM!”, tão curto quanto sua paciência. Então, em complemento, soltei: “Ah, então, se ele te deu, ele sabe que você vai conseguir. Tenta de novo!”. O garoto acabou percebendo a plateia – eu e Eva em meu colo – e logo se defendeu: “No da Lis (vou chamar assim, porque acho mais bonito), eu consigo!”. 

Enquanto ele me mostrava no celular um vídeo em que ele estava em pé numa geringonça roxa, dando vários giros, brotou uma menina gordinha, bem maior do que ele, com o braço direito enfaixado. O menino então exclamou, surpreso: “Lis, o que foi isso?”. Ela, com a cara traquina de quem toparia testar a geringonça do menino, aparentemente mais difícil do que a dela, respondeu numa boa: “Caí desse troço!”.

E a babá, tão curiosa quanto eu: “Como foi? Doeu? Você chorou?”.

Com a cara mais LISa do mundo, a menina soltou: “Doeu, sim, mas tomei um sorvetinho e passou!”. E ofereceu o braço e uma canetinha pro Davi escrever o nome dele. O A-U-G-E.

Não contive a gaitada. Parabenizei Lis – “Esse sorvete deve ter tido o sabor de vitória, hein?” – e voltei para casa com Eva no braço e a ideia de manter um estoque de sorvete em casa. Para as visitas, para a minha futura Lis – vulgo Eva Furacão – ou para o caso de faltar gelo nas próximas pancadas que eu levar na vida, em qualquer estação do ano e, principalmente, da maternidade. 

Um sorvetinho, gente! Bora que tá calor também!

Autora: Danielle Lins
Revisão: Laura Bonruck

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