Era um ovo de Páscoa, com um brinde dentro. Minha filha o segurava, no mercado, aquele ovo já quebrado, quase um mês depois da Páscoa. Custara apenas dois reais, em meados de 2006.
No caminho, ela carregava, orgulhosa, o resto de chocolate com a frase: “Um brinde especial”.
Eu era mãe solo, aos vinte e um anos, de uma menina de quatro, e passávamos por dias muito difíceis. Minha filha tinha muitas crises e não socializava, principalmente com meninos. Tinha seletividade alimentar e, na creche, diziam que ela não falava. Eu trabalhava como agente funerária, um trabalho difícil. Porém, nada se comparava à missão de ser uma mãe sem uma rede de apoio.
Em casa, ela lia. Aos quatro anos, falava palavras em inglês e montava quebra-cabeças com uma rapidez impressionante.
Ela nem esperou entrarmos. Rasgou o papel metálico, ansiosa para descobrir o que havia ali dentro.
— Um coelho, mamãe. Coelho é mamífero, e os dentes dele crescem pra sempre — disse ela, sorrindo.
Quando olhei, não consegui conter o riso. Um coelho minúsculo, de plástico, que não devia ter dois centímetros. Pensei nos pais que o tinham comprado por um preço surreal só por causa daquele brinquedo.
Dei de ombros e voltei às compras, tentando evitar pensar que não tinha nem metade do que precisávamos para o mês.
— É o Zeca, o coelho caolho. Ele fica bravo quando vê crianças e se assusta com barulhos muito altos. Meu amigo para sempre, eu vou cuidar dele agora.
E, a partir dali, o Zeca, com seus dois centímetros, começou a ocupar um espaço imenso na nossa vida.
Sentava-se à mesa nas refeições, ia ao banheiro e dormia ao lado dela, dentro de uma meia, embaixo do travesseiro. Vivia apertado nas mãos pequenas, com unhas roídas até a carne, durante as crises na escola. De tanto apertar, o macacão azul estava perdendo a cor.
Eu estava com pressa; sempre estava. Não poderia perder o ônibus novamente. Havíamos passado a noite em claro; ela se recusara a dormir, segundo ela, para não sonhar. Eu tinha que deixá-la com a cuidadora e correr para o trabalho. Não podia me atrasar de novo.
Em uma mão, ela segurava a minha. Na outra, o Zeca.
Peguei a única fruta que ela comia: banana. Contei as moedas que eu tinha retirado, escondida, do cofrinho dela.
E, no meio do caminho, enquanto eu a puxava pela mão pequena, correndo contra o tempo, o Zeca caiu. No meio da rua.
O semáforo abriu e os carros passaram. O fluxo me impedia de voltar.
Ela gritou, debateu-se; as mãos arranharam o rosto vermelho. O corpo inteiro entrou em desespero, tentando se soltar da minha mão. Eu fazia força para contê-la; nesses momentos, ela adquiria uma força descomunal, com o olhar perdido, repleto de desespero. Outra pessoa nem notaria o pedaço minúsculo de plástico ali, no meio da via. Mas eu sabia o tamanho do seu significado. Era o Zeca, o coelho caolho, o único e inseparável amigo da minha filha.
Abracei aquele corpinho trêmulo, o coração disparado no peito contra a minha camiseta molhada, e repetia para nós duas que ficaria tudo bem, que buscaríamos o Zeca assim que o sinal fechasse.
As pessoas olhavam. Esperei o sinal fechar e voltamos correndo.
O Zeca estava lá. Eu fechei os olhos, em desespero. Espalhado no asfalto. Vários pedaços de plástico disformes, tão miúdos que eu só os reconhecia pela cor.
Ajoelhei-me no meio da rua e comecei a juntar os pedaços pontiagudos. Um fragmento de orelha branca. Um estilhaço do macacão azul. Um quase nada que, junto, era o mundo inteiro daquela criança. Com uma mão, eu segurava firmemente a mãozinha trêmula e gelada; com a outra, tentava recolher os restos do Zeca.
— O Zeca tem medo de moto, mamãe, elas fazem barulho — repetia várias vezes, tampando os próprios ouvidos.
Minhas unhas raspavam o chão. As lágrimas desciam abundantes. Um fio de sangue surgiu na ponta do meu dedo, que levei rapidamente à boca. Já tínhamos tido uma experiência ruim quando ela fez um pequeno corte no dedo e viu sangue.
Levantei antes que os carros voltassem a passar.
Eu queria dizer que daria conta. Que conseguiria colar aquele brinquedo e juntar tudo o que o mundo despedaçasse nela. Mas minhas mãos não davam conta nem do Zeca, um brinquedo de dois centímetros.
Tentei amenizar. Ofereci outros coelhos. Um Sansão da Mônica, de pelúcia, igual ao dos quadrinhos. Um coelho de verdade, quem sabe. A resposta vinha em soluços que sacudiam o corpinho.
Ela dormiu no meu colo, meus braços dormentes pelo peso físico, e o coração pesado de culpa e responsabilidade. Eu ouvia as vozes das pessoas que diziam: “Essa menina tem alguma coisa… ela é estranha”.
Perdi o dia de trabalho, deitei-me junto com ela e chorei. O medo de não dar conta tomava conta de mim. No dia seguinte, minha gerente me esperava com a demissão e um olhar de pena.
O silêncio, que antes era só na escola, começou a invadir a casa; ela procurava o Zeca debaixo do travesseiro, durante o sono. Mesmo sem nome, mesmo sem diagnóstico, eu soube que não era sobre o coelho.
Naquele dia, ajoelhada no asfalto, com os pedaços do Zeca nas mãos, eu entendi: nem tudo eu conseguiria proteger. Mas eu nunca soltaria a mão dela.
Autora: Daiane Santos
Revisão: Laura Bonruck





