Ela abriu os olhos devagar, espreguiçou-se lentamente, para que pelo menos o corpo despertasse antes da mente. Por alguns instantes, ficou ali, tentando reconhecer o espaço ao redor.
A linda realidade respirava ao seu lado.
De cada lado da cama, as duas pequenas dormiam profundamente, envolvidas pelas cobertas. Uma tinha os cachinhos espalhados pelo travesseiro; a outra ainda dormia em posição fetal.
A falta de vontade de se levantar ainda existia. O corpo permanecia pesado, marcado pela noite interrompida pelas mamadeiras feitas e servidas, pelas listas mentais repassadas e pelas preocupações que nunca dormiam completamente.
Com cuidado para não acordá-las, inclinou-se primeiro para um lado, depois para o outro, e beijou a testa de cada menina.
Em seguida, fechou os olhos por um instante e fez uma pequena prece silenciosa. Não pediu riquezas nem caminhos fáceis. Pediu apenas proteção. Pediu que a vida fosse gentil com elas. E, acima de tudo, pediu que tivessem um dia feliz.
Era sempre assim. Antes mesmo de o dia nascer completamente, ela já havia atravessado uma parte inteira dele.
No banheiro, a água do chuveiro caindo sobre as costas termina o despertar.
Na cozinha, o café, finalmente inicia o dia.
O silêncio da casa se despede: o arrastar das sandálias pelo corredor, as vozes ainda roucas de sono, a pergunta sobre o uniforme, a procura por uma presilha que certamente estaria onde ninguém havia procurado.
Ela conhecia a coreografia daquela manhã.
Conhecia também a exaustão que vinha depois dela.
Ser mãe solo era aprender a sustentar muitas coisas ao mesmo tempo. Sustentar o corpo de duas crianças no colo, mesmo quando os próprios braços pediam descanso. Sustentar as contas, os prazos, as febres, os medos e as decisões que não podiam ser adiadas até que alguém chegasse para dividi-las.
Havia dias em que se sentia uma árvore antiga, de raízes profundas, mas com os galhos vergados pelo peso das tempestades. Nesses dias, ninguém percebia o esforço necessário para permanecer em pé. As pessoas viam apenas que ela continuava, e não que ela precisasse de amparo.
Continuava levando à escola, trabalhando, respondendo às mensagens, conferindo os deveres, procurando o remédio certo, fazendo as compras, ouvindo as histórias repetidas e as perguntas que surgiam justamente quando o cansaço já lhe fechava os olhos.
Continuava, sobretudo, tentando não deixar que as filhas percebessem o tamanho das suas preocupações.
Não porque quisesse ensiná-las a esconder a dor, mas porque havia dores que ainda não sabia como explicar. Como dizer a uma criança que o dinheiro precisava ser cuidadosamente contado? Como explicar que uma mãe também sente medo, embora continue caminhando? Como admitir que, às vezes, desejava desaparecer por algumas horas sem que isso significasse amar menos?
Ela não tinha respostas para tudo.
Aprendeu, aos poucos, que a maternidade não era a construção de uma mulher sem falhas. Era, antes, o exercício diário de remendar os próprios pedaços e, ainda assim, oferecer presença. Era respirar antes de responder. Era pedir desculpas. Era reconhecer que também precisava aprender.
A sociedade espera muito das mães. Espera que sejam fortes, disponíveis, pacientes e felizes. Espera que não reclamem do peso, como se o amor transformasse automaticamente toda dificuldade em leveza. Mas o amor não elimina o cansaço. Não paga as contas. Não cura a solidão. Não faz desaparecer o medo de errar.
Aliás, havia também os dias em que tudo dava errado: o leite derramado, o atraso, a discussão por causa dos sapatos, a mochila esquecida, o grito que escapava antes que pudesse contê-lo. Nessas ocasiões, sentia a culpa crescer dentro de si como uma planta invasora, tomando espaço, sufocando tudo o que havia de bom.
Mas o amor lhe dá uma razão para continuar procurando caminhos para o bom maternar.
E ela procura!
Ela encontra sentido e beleza nas coisas pequenas. No modo como uma das meninas pronuncia determinadas palavras. Na gargalhada que surge sem aviso no meio da sala. Nos desenhos deixados sobre a mesa. Na confiança com que ambas correm para os seus braços depois de um dia inteiro. Nos penteados novos, nas unhas pintadas de cores diferentes, nos bilhetes escondidos dentro da bolsa, nos abraços demorados antes de dormir.
Está na pergunta que uma delas faz, quase todas as noites:
“Você vai me fazer dormir?”
E ela faz. Mesmo quando precisa acordar cedo. Mesmo quando ainda precisa trabalhar. Mesmo quando a cama parecia distante demais e o corpo já não encontra uma posição confortável.
Talvez as meninas não se lembrem de cada madrugada em que ela permaneceu acordada ao lado de uma cama febril. Talvez não se lembrem das vezes em que ela saiu de casa carregando preocupações que não cabiam na bolsa.
Mas talvez se lembrem de terem sido amadas.
Depois, quando a casa finalmente silenciava, perguntava-se se estava fazendo o suficiente. Se as filhas cresceriam compreendendo que o seu cansaço nunca fora falta de amor. Se saberiam distinguir os dias em que ela falhou daqueles em que apenas era humana. Então percebia que também havia florescido ali.
Florescera porque, mesmo sem garantias, continuava plantando:
Plantava palavras quando contava histórias antes de dormir.
Plantava coragem quando ensinava as meninas a nomearem o que sentiam.
Plantava liberdade quando dizia que elas não precisavam diminuir a própria voz.
Plantava ternura quando lhes mostrava que cuidar não era uma obrigação destinada apenas às mulheres, mas uma escolha que deveria pertencer a todos.
E assim, por elas, ela seguia.
Por elas, aprendeu que a coragem não era a ausência do medo. Era levantar-se apesar dele.
Por elas, compreendeu que uma mãe sozinha não era uma mulher incompleta, mas alguém que todos os dias inventava maneiras de permanecer.
Por elas, começou a escrever, não porque tivesse encontrado todas as respostas, mas porque precisava registrar as perguntas. Não porque se sentisse pronta, mas porque a vida já estava acontecendo.
Naquela noite, depois que as meninas adormeceram, sentou-se à escrivaninha.
Pegou o papel e a caneta, e escreveu:
“Por elas.”
E começou a escrever também por si.
Autora: Ari Ferraz – @ari_g_ferraz
Revisão: Juliana de Castro Grassmann





