Geração casa do bolo

A mother and son enjoy cooking and bonding in a bright modern kitchen.

Eu cresci numa casa onde era preciso esperar o bolo acontecer. Primeiro separar os ingredientes (e diga-se de passagem, nem todos os dias tínhamos tudo disponível em casa), depois bater a massa, aquecer o forno e acompanhar o cheiro que aos poucos tomava a casa. Ainda lembro do gosto da colher com margarina e açúcar batidos que minha tia me deixava lamber. Lembro exatamente da bacia enorme de plástico, a colher de pau e três ou quatro crianças esperando como seria o rateio final, quem ficaria com a colher e quem raparia a bacia com restinho de massa. E aí tinha a espera para o bolo assar, nos longos e angustiantes 40 minutos que viriam pela frente. E quando finalmente estivesse pronto… alguém ainda nos faria esperar o bolo esfriar.  Sim… porque, como dizemos aqui no Nordeste, bolo quente “dá bucho inchado”. Talvez tenha sido ali que aprendi que as melhores coisas da vida pedem tempo. Ou pelo menos, eu achava que tinha aprendido.
Hoje sou mãe de uma criança da geração “casa do bolo”. É aquela mesma, que a gente passa e pega o bolo quentinho, do sabor que a gente quer comer e come quentinho, porque bolinho quente com café é muito bom. A geração que nasceu em um mundo onde quase tudo chega pronto, rápido e ao alcance de um toque. A geração que já nasce em um mundo imediatista, o mundo dos “reels” de 1 minuto e dos “shorts”. Eles não irão saber o que é esperar até o outro dia pra descobrir o que vai acontecer com “Jaspion, She-Ra, He-Man,” ou o que vai ter amanhã na TV Colosso (Só pra vocês não acharem que sou tão velhinha). Hoje sou mãe de criança autista, dona de um tempo próprio, marcado por desafios, superações e conquistas que nem sempre cabem na velocidade que o mundo exige.
E eis que me lembro que, um dia desses, numa manhã comum, enquanto ele tomava café da manhã no seu ritmo, eu me vi impaciente. Tínhamos que sair pra escola, eu tinha que trabalhar. E a gente pede, cobra e a criança continua lá no tempo dela. Você fala, você pede novamente e chega até a pensar: que desaforo! Que menino mal-educado! Não vou ser permissiva, vai ficar aí, talvez amanhã ele aprenda e quem sabe aprenda a se programar como eu …  Entrei no carro, bati a porta e fui embora. Sim, a mãe louca. A mãe cansada. A mãe que cobrava pressa de uma criança da geração casa do bolo, enquanto era incapaz de esperar.
No caminho, fui tomada por uma pergunta: quando desaprendi a esperar? Como posso ensinar paciência se eu mesma falho tantas vezes? Como educar filhos que nasceram expostos a tudo aquilo que eu não tive, oferecendo liberdade sem abrir mão dos limites?
Talvez sobreviver à maternidade seja isso: perceber que nossos filhos não vieram para caber no nosso tempo. Vieram para nos ensinar outros ritmos.
Mas ainda procuro respostas. Afinal, como uma mãe da geração que esperava o bolo assar educa uma criança da geração casa do bolo? Quem souber, me diga por favor.

Autoria: Rayegne Mendes 

Revisão: Bárbara Soares

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